Conto : O RECEBIMENTO DE KARA ( parte 04 )

conto O Recebimento de Kara

Continuação do conto O Recebimento de Kara, em sua quarta parte.

 

 

 

Partes anteriores : Parte 1 , Parte 2 e Parte 3 .

 

Decker estava conectado no deck daquele novo apartamento desocupado. Seus dedos corriam agilmente pelo teclado, enquanto códigos eram inseridos. Kara estava sentada em um sofá na frente dele. Ela estava olhando para ele atentamente, aguardando pacientemente. Tentou perguntar o que ele estava fazendo, mas como não recebeu resposta desistiu de tentar novamente. Ele estava resmungando varias coisas incompreensíveis quando parou repentinamente. Ele tirou os dermatrodos e desconectou o neuro-player do deck.

 Ela sorriu, abriu a boca para perguntar, mas antes que falasse ele jogou o neuro-player para ela que o pegou no ar com uma precisão milimétrica. Voltou a olhar para ele com um ar inquisitivo, quando ele falou calmamente:

 - Realizei um hack no neuro-player, agora ele é um receptor de sinal de meu deck. Coloque ele que eu te mostro.

 Ela o fixou na orelha, enquanto ele estava reconectando o dermatrodo.

 - Pode acionar.

 O logo da Syntec Emotions surgiu na frente da visão dela, seguido da frase de inicialização e um contador. Após a indicação de software completo apareceu o menu.

 - Quando aparecer o menu escolha a opção de deck hack 1.4.2.

- Sim Decker. Eu escolhi.

 - Espere eu me conectar na Matrix, você vai passar a ver o que eu mandar de sinal.

 Na visão dela estava tudo escuro, quando uns lampejos começaram e uma imagem borrada fora ganhando foco. Em segundos, Kara estava vendo a imagem de uma criatura de manto e de mascara branca sem face. Em volta dele estava escuro com varias linhas prateadas formando grades cintilantes.

 - Decker, quem é esse? - Ela falou com empolgação.

- Meu avatar na Matrix.

 Ela não esperava resposta e lembrou-se disso ao terminar a pergunta.

 - Você está me ouvindo?

- O hack do neuro-player me permite te ouvir e posso me comunicar com você, através de texto. - Ele disse.

 Linhas de texto apareceram na frente da visão dela, em frente a imagem do ser de manto:

 “Posso enviar textos que aparecerão na sua frente”.

 Ela ria.

 - Decker, mas para que você vai fazer isso?

 “Vou precisar te mandar imagens, quando estiver dentro da Matrix, para o que vamos fazer agora.”

 - O que vamos fazer?

 “Vamos invadir a Quantic Dreams. É a única maneira de descobrir o que está acontecendo e também, a única maneira de resolver o nosso problema. Mas vou precisar acessar um deck interno, de preferencia o mais próximo do sistema central deles.”

 Ela ficou empolgada com a ideia de entrar na Quantic Dreams.

 - Como nós vamos entrar lá?

 “Vou entregar você.”

 Ela arrancou o neuro-player e levantou-se rapidamente.

 - O QUE?! DECKER!!!!!!

 Ela sentou-se deixando o corpo cair no sofá com os braços cruzados, olhando para o lado com a expressão irritada, lagrimas começaram a brotar dos seus olhos.

 - Você me prometeu... - Não conseguiu terminar a frase, com a voz diminuindo até se transformar em um suspiro.

 Estava com as mãos em frente do rosto, quando Decker soltou os dermatrodos.

 - Kara...

 Ela se jogou no sofá com o rosto para baixo, choramingando.

 - Não fale comigo! Você é um traidor!

- Kara... - Ele usou uma voz calma.

 Aproximou-se dela sentando do lado do sofá, colocando a mão na cabeça dela. Ela balançou e virou-se para o lado do sofá.

 - Não me toque!

 Estava de costas para ele. Estava chorando.

 - Kara, eu não vou lhe entregar de verdade.

 O choro parou.

 - Não? - ela ainda estava na mesma posição.

- Não. Nós vamos simular para podermos entrar no prédio da empresa. Pelo que eu vi nos arquivos de Jason, eles querem que seja entregue inteira. Eles pretendem localizar algo que está dentro de você, algum componente especifico. Não imagino o que seja. Algo chamado LaBelle. Você sabe o que é isso, Kara?

 A expressão dela ficou vazia e um breve lampejo de cor vermelha passou pelos olhos dela. Decker não pôde ver.

 - Não sei o que é. - Ela falou calmamente.

 A expressão suavizou.

 - Não vai me entregar de verdade? Mesmo? - Estava falando com voz chorosa.

- Não.

 Ela virou-se rapidamente abraçando ele com tanta força que por pouco ele achou que ela iria quebrar seus ossos, acabou desequilibrando e caindo com o peso dela sobre ele.

 - Kara?

- Sim Decker.

- Você é pesada.

- Decker ! Isso é coisa que se diga para uma garota?! - Ela disse com indignação estampada no rosto.

- Garota? - Ele riu. - Kara, nós temos que ir.

 Ela não se moveu, com a cabeça encostada e os olhos fechados.

 - Decker? - Murmurou.

- O que foi Kara?

- Podemos ficar assim mais um pouquinho?

 Ele sorriu e passou a mão lentamente na cabeça dela, respondendo o abraço.

 - Claro.

 Eles permaneceram na mesma posição sem se moverem.

 - Espero que eles acreditem nesse plano. É a melhor maneira de conseguirmos entrar na Quantic Dreams. Vamos aproveitar o dia de hoje que não deve ter expediente de trabalho. Mantenha aquele disfarce até chegarmos próximos na empresa.

- Nós não podemos tentar entrar de outro jeito? Ou poderíamos tentar fugir de tudo isso?

- É muito mais arriscado e chamaríamos atenção demais. Eles sabem quem é você e seu rosto não muda, então sempre estariam atrás da gente. A única maneira de resolver isso, é alternando todos os seus registros dentro do main da Quantic Dreams. Se eles acharem que já desmontaram você, eles vão para de te procurar. Só espero que o governo faça o mesmo, porque se os agentes estão atrás da você significa que o governo tem alguma coisa nesse problema e eu não imagino o que seja. Temos que evitá-los neste momento até conseguirmos entrar na empresa.

- Então vamos fazer isso... - Ela disse, não muito animada.

- Vamos Kara. - Ele a afastou lentamente e passou os dedos no rosto dela para enxugar as lágrimas - Você sai primeiro e eu vou depois, nos encontramos na entrada da estação do levmag, descendo dois quarteirões no sentido sul. Ok?

- Sim, Decker. Ajustando rota para a estação. - Ela respondeu com os cabelos mudando de tamanho e de cor.

 Ela arrumou as roupas e saiu caminhando. Decker fez um check nas roupas e equipamentos, colocou a arma dentro da jaqueta e o teclado nas costas. Ao sair, fez uma ultima conexão para travar a porta e apagou os logs de entrada. A fechadura emitiu um som curto e a porta voltou a ficar travada como se não tivesse sido aberta.

 Ao sair do prédio, Decker observou o andamento das pessoas. Não encontrou nenhuma ameaça. Seguiu em direção da estação andando calmamente com as mãos nos bolsos. Parou em frente a uma loja de vestuário e ficou olhando para a vitrine com os displays. Estava parado como quem vê os produtos em exposição, mas estava realmente olhando os reflexos e por isso pode ver a distancia, no meio da multidão, um agente o observando. Trocou de ângulo para ver em outras direções e não constatou mais nenhum outro, mas tinha certeza que aquele agente não estava sozinho. Iniciou a caminhada e entrou na próxima viela entre prédios, aproveitou o momento e correu para atrás de uma grande caçamba de compactação. Agachou-se embrenhando nas sombras e puxou a arma. Ficou olhando para as sombras na parede oposta. Um vulto foi aumentando de tamanho, indicando a aproximação do agente.

 Segundos depois, um segundo vulto menor surgiu. Um segundo agente.

 Decker estava aguardando a chegada do agente, quando um outro vulto desceu de algum lugar do alto. Fora uma sequencia rápida de golpes entre os três vultos, muitos gritos e o som de tiros disparados. Decker sentiu o compactador vibrando e o som de peso caindo no interior do mesmo. Houve um estalo seguido de um ruido alto e tudo ficou silencioso. Quando Decker olhou a parede oposta, não tinha mais vulto algum. Ele esperou para certificar-se que não havia mais ninguém e foi saindo cautelosamente. Tudo estava calmo, nas paredes tinham marcas de tiros e manchas de sangue borrifadas. O compactador estava funcionando e Decker nem quis conferir o que estava dentro.

 Porque ele já sabia.

 Ao chegar dois quarteirões abaixo, na frente da estação entre as pessoas que estavam circulando Kara estava parada aguardando a chegada de Decker. Ele aproximou-se do lado dela e falou de lado:

 - Obrigado, por ter resolvido o problema dos agentes.

- De que está falando, Decker? Agentes? Aonde? - Ela estava olhando procurando em volta, com a expressão preocupada. - Temos que nos esconder então...

 Havia sinceridade nela e Decker ficou aturdido. Ele reparou nas gotas de sangue nas luvas dela, mas preferiu não comentar. Se ela estava fingindo, tinha melhorado muito na interpretação. Ele estava sentindo um incomodo surgindo, uma sensação de que iria ter alguma surpresa muito desagradável em algum momento.

 - Os agentes não são mais um problema neste momento.

- Ah... Que bom, Decker ! - Ela sorria.

 Fora uma viagem silenciosa e sem incidentes no levmag até a estação próxima da empresa Quantic Dreams. Eles saíram da estação e seguiram cautelosamente em direção da entrada principal da empresa. Esta ocupa um grande quarteirão inteiro e fica atras de muros enormes. Decker desconfia que a maior parte da empresa fica no subterrâneo. Ele parou Kara.

 - Agora que vai ser a hora.

 Ele gentilmente prendeu os pulsos dela juntos com correntes e colocou uma trava de código.

- Me desculpa por fazer isso, eu te solto quando entrarmos.

Ela olhou para as mãos atadas e depois olhou para ele. Balançou as mãos e fez um pouco de força, as correntes não cederam. Ela abriu um sorriso. Pelo que ele já testemunhou, ele sabe que ela quebraria essas correntes sem muita dificuldade.

- Sim Decker.

- Eu confio em você Decker. - A aparência dela estava voltando a aparência padrão de cabelos escuros e curtos.

 Decker seguia atras com a arma em punho, nas costas dela, que estava com uma expressão sombria. Estavam se aproximando do portão, quando uma imagem apareceu do lado, em um display. O rosto de um homem apareceu.

 - Hoje não tem expediente. Cai fora!

- Estou trazendo, esse androide. Ofereceram um valor para entregá-lo inteiro. Vou largá-lo e pegar meu dinheiro.

 Houve uma pausa e o rosto no display estava olhando para alguma outra direção.

 - Está aqui escrito que o estavam procurando. - Ele olhou para o display cerrando os olhos. - A aparência confere. Mas como eu disse, volte depois de amanhã.

 Decker fez uma expressão sombria.

 - Ela me deu muito trabalho para capturá-la e se não eu receber hoje, não vou entregá-la novamente. Vocês que a capturem...

 Uma segunda pausa. O homem estava falando com alguém, mas não se ouvia o dialogo. Resmungou algo sobre “malditos workaholics de laboratório”. Ele voltou a olhar para o display.

 - Estão te esperando no laboratório...

 Uma porta de acesso deslizou oferecendo passagem para dentro da empresa.

 Decker respirou fundo e com um toque da arma, indicou para Kara andar.

 Ambos entraram.

 

( continua na quinta parte - neste link )

 

 

 

 

 

 

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