Conto : O RECEBIMENTO DE KARA ( parte 02 )

recebimento capaContinuação do conto O Recebimento de Kara

 

 

Leia a primeira parte aqui.

 

 


O RECEBIMENTO DE KARA ( parte 2 )

 

 

Decker acordou sem noção exata de aonde estava. Seus olhos procuraram na baixa luminosidade identificar o local.

Varias pilhas de caixas metálicas e pequenos containers. Parecia um deposito.

Estava deitado atrás de um grupo de caixas. Viu o teclado ao seu lado e fez uma verificação rápida de todos os bolsos internos do sobretudo e das calças. Estava tudo correto. Tinha a impressão que teve um sonho com uma androide e uma fuga em queda livre por uma janela. Só pode ser sonho mesmo, como que ele iria cair por uma janela trocando tiros e sobreviver ileso?

Ele pensou que deveria evitar dormir assim em qualquer lugar, mas as últimas missões tinham consumido os últimos três dias praticamente inteiros e seu corpo não aguentou o período longo sem sono.

O estomago roncou e ele consumiu rapidamente uma barra de Snack que estava em um bolso, mesmo assim, o estomago continuou reclamando e não havia mais nada o que comer. Fez uma nota mental de que deveria reabastecer o mais breve possível.

Estava de pé se recompondo e preparando-se para sair quando uma voz vinda de algum lugar do alto, quebrou seu raciocínio:

- A área está segura, Decker.

Concluiu que não era sonho. Ele realmente estava com uma androide e ela se chama Kara.

- Kara?

- Sim, Decker.

- Aonde está?

- Vigiando o perímetro conforme ordenado.

Ele varreu a área com os olhos. Não viu nada. Só sombras e caixas.

- Venha aqui.

- Sim, Decker.

Ele ouviu um som muito sutil de deslocamento de ar e vindo de trás de uma pilha de caixas, a androide de cabelos curtos veio andando. Seu corpo estava mudando de cor, de preto para a cor de pele. Decker estava surpreso, não sabia que existia algum androide que tinha essa capacidade.

Pelo menos não em um modelo de androide doméstico, como era o modelo AX400.

- Você muda de cor?

- Sim, Decker.

- Para qualquer aparência?

- Sim, Decker. Tenho um algoritmo que pode ajustar o controle cromático dermal e modificar o padrão da superfície do meu corpo. Não posso alterar a forma da estrutura e nem a aparência do meu rosto entretanto.

- Então, você estava camuflada com o ambiente escuro...

- Sim, Decker. Fiz errado? - Parecia que estava um pouco decepcionada.

- Não. Só estou admirado.

- Decker ficou feliz?

- É, eu gostei.

- Então eu estou feliz também. - Ela sorria.

Ele lembrou do ocorrido dentro daquele apartamento. Principalmente a entrada dos agentes. Era evidente que havia algo a mais com aquela androide, algo que alguém prefere destruir. Algo muito alem de um simples recall. Eles entraram já dispostos a eliminar qualquer um que tivesse tido contato com aquele modelo especifico e isso significa que é muito provável que Decker agora esteja na lista de alvos. Não havia mais escolha, Decker teria que intervir.

- Kara, quem quer te destruir?

O sorriso sumiu do rosto dela. Ela ficou seria.

- Não sei dizer Decker. Eu só me lembro de ter acordado ouvido a voz do criador, depois ele me fez varias perguntas. Foi quando senti meu corpo pela primeira vez. Estava feliz, então ele me disse que eu seria vendida como uma mercadoria e eu... Eu pensei... - Lágrimas desceram do rosto dela, ela olhava para o chão. – Que estava viva. Mas a voz do criador me disse que eu não devia pensar, então disse que eu tinha defeito e que deveria ser destruída. Eu gritei pela minha vida e ele me deixou ir. Quando a caixa transparente fechou, eu dormi.

Ela esticou os braços na direção dele.

- Até que ouvi a voz de Decker, meu dono, que me acordou do sono... E me fez viva novamente.

Ela o abraçou, encostou o rosto de lado no peito dele. Decker não reagiu. Estava pensando no que ela disse. Ele passou a mão na cabeça dela.

- Kara, como era o lugar?

Ela ajeitou-se ainda abraçada.

- Era uma câmara com muitas luzes, eram tão intensas que era difícil ver alguma coisa. Ao meu redor, haviam vários braços brancos e algumas esteiras. Vi outras três irmãs gêmeas de Kara dentro das caixas transparentes. Eu ouvia a voz do criador, mas não conheci o rosto dele.

- Uma linha de produção. O homem deve ser o montador. Kara. Tem algo fora do padrão, já havia percebido isso, eu preciso descobrir o que é. - Ele pensou.

- Kara, ficar com você vai ser um risco para mim.

Ela afastou ele com os braços esticados. Estava em panico.

- Decker vai me destruir?

- Já lhe disse que não.

Ela o abraçou. Novamente relaxada.

- O que queria dizer é que vou descobrir o que está acontecendo e você vai me ajudar. Antes, como disse, vamos te arrumar algumas roupas. - Ele disse afastando Kara gentilmente. Retirou o sobretudo e fez ela vesti-lo. - Quanto tempo eu dormi? - Perguntou quando ela estava ajeitando o sobretudo.

- Um dia, sete horas e vinte e dois minutos. - Ela disse distraída.

- O que? - Ele estava sentindo-se desnorteado.

- Um dia, sete horas...

- Entendi. - O estomago estava roncando mais forte agora.

 

Um ser de manto estava parado sobre uma linha prateada dentro da Matrix. Um livro e uma luva de couro grande surgiram a sua frente. As páginas do livro foram passando e o dedo indicador encostou em uma especifica. A sua frente, uma imagem formou-se até solidificar um manequim com roupas sadomasoquistas. O livro e a luva desapareceram.

- Olá Decker. - O manequim sorria, mas a boca não se movia com a fala.

- Mistress... Como foi com o Anonymous?

- Ah... Foi muito divertido, fazia tempo que não via tanta gente trabalhando junta. Você devia estar lá também.

- Já lhe disse que tinha uma missão.

- É, eu me lembro... Terminou a missão?

- Claro. Agora preciso de ajuda.

- Bem, Dec... Queria poder te ajudar, mas agora sou eu que tenho uma missão. É o que?

- Eu preciso que rastreie um homem.

O manequim mudou de expressão.

- Rastrear não é bem comigo, você sabe que sou melhor para entrada e destruição. Você sabe quem é “a” especialista em rastreamento.

- Ah... Não... Não me diga....

O manequim colocou mão na frente do rosto agora sorridente.

- Ru...Ru...Ru...Ru...Ru... Queria poder ver sua cara agora... Tenho que ir, querido... Tchauzinho...

O avatar de Mistress desapareceu.

Ele ficou parado, os dedos pousados no teclado. Levou alguns minutos, mas quando se convenceu que não tinha outra solução no momento, lançou o código de mensagem. O livro e a luva voltaram a aparecer. Novo toque.

Segundos depois apareceu uma criatura pequena: Um corpo esguio feminino, todo desenhado com losangos azuis e pretos, usando luvas e botas brancas com babados cheio de guizos. Na gola outros babados com guizos. A cabeça separada do corpo parece com a de um coelho sem boca, também branca com olhos vermelhos. As orelhas compridas são dobradas no meio para baixo, com guizos nas pontas. Na mão esquerda, há um cetro com uma versão pequenina da cabeça na ponta. A criatura parece saltitar, mas apesar de tantos guizos balançando não há nenhum som vindo deles.

- 4|-||-||-||-| ! D3C|

- JesteRab, eu NÃO gosto de você... Só te chamei porque não tinha outra pessoa.

- D3c|

JesteRab não é a melhor jóquei que tem na Matrix. Ela é uma negação em ataque e defesa. Mas por algum motivo que todos os outros jóqueis não sabem, ela é a melhor rastreadora que existe. Os jóqueis não gostam dela pois ela nunca está presente quando aparecem as grandes ameaças, porque sempre some e nunca é vista pelos sistemas de segurança, por mais avançados que eles sejam. Isso seria uma grande vantagem para invasão, mas ela não usa essa vantagem, porque só sabe fazer isso: Rastrear e se esconder.

O que enfurece ainda mais eles.

Decker tem uma ojeriza completa por ela, considera ela infantil demais, mas por mais que ele não goste disso, ela parece ter uma atração por ele.

Para Decker, o outro problema é a insistência dela em usar esse tipo de linguagem.

- Jes, eu não gosto mesmo de você, mas preciso de seu trabalho...

- D3c|

Em uma loja do centro, um homem estava rangendo os dentes. - DROGA! DROGA! DROGA! - Uma androide de cabelos curtos soltou um risinho.

Dentro da Matrix uma criatura de manto não alterou-se, porque não muda de expressão facial, apesar de seu jóquei estar com a expressão claramente furiosa.

- Me desculpa, JesteRab! Está bom assim?

A cabeça da pequena criatura girou para o outro lado, sem o corpo se mover. Houve uma pausa.

- 24b14 ! 24B14 ! D3C|

- O que eu fiz para merecer isso? - Ele disse desanimado.

- O 9|_|3 D3c|

- Preciso que encontre uma pessoa.

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- Um funcionário da Quantic Dreams, o responsável pela montagem do modelo de terceira geração do androide AX400.

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- Eu transfiro para você...

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- Um encontro?

Na loja todos pularam quando um grito saiu da boca do jóquei.

- Eu...................... Aceito.

- Y|_||-||-||-||_||-||-||-| ! - Ela pulava. - J3273R46 \\\\\\\\\\\\\\\\/41 4c|-|4r 0 |-|0|\\\\\\\\\\\\\\\\/|3|\\\\\\\\\\\\\\\\/| 3 \\\\\\\\\\\\\\\\/41 73 |\\\\\\\\\\\\\\\\/|4|\\\\\\\\\\\\\\\\|d4r 02 d4d02. 1|\\\\\\\\\\\\\\\\|73|-| ! - Ela ergueu o cetro e o avatar ficou sem definição, saindo pela via prateada em grande velocidade.

Decker desconectou com um enjoo repentino. - Não acredito... - Ele sentiu um desanimo crescente misturado a um continuo arrependimento.

- Kara? Aonde você está?

Ela surgiu de um provador em forma de tubo, que estava branco e tornou-se transparente. Estava vestida com uma calça preta, um top roxo com um casaco semelhante aos dos toureiros também preto. Luvas sem dedos vermelhas e salto agulha preto. A vendedora com cabelos roxos sorria.

- Ela está ótima. Não concorda? - Disse a vendedora com um sorriso no rosto.

Ele nada disse, apenas ficou olhando. Ela dava risinhos.

- Do que está rindo?

- Decker fica falando quando está na Matrix.

- Eu falo?

- E até grita...- Mais risinhos. Incluindo agora os da vendedora. - Vocês dois são um casal bonitinho... - A vendedora disse.

- Decker é meu dono. - Kara soltou com naturalidade, sorrindo.

- Dono? - A vendedora estava com uma expressão perplexa.

- É... Hmmm... Força de expressão... - Disse Decker – Quanto vai ser?

A vendedora fez vários toques em um plastico holográfico alegremente e mostrou o resultado a Decker, cuja boca se contorceu logo em seguida, não estava acostumado a gastar esse tanto em roupas.

Ele conectou os dermatrodos e digitou a transferência.

Ela consultou a transação e agradeceu pela compra.

Kara fez um gesto de despedida e saiu atras de Decker que abandonou a loja rapidamente.

Na rua ocorria o movimento frenético padrão de pessoas.

Aonde vamos Decker? - Kara perguntou segurando no braço direito de Decker, enquanto ambos misturavam-se com a multidão.

- Arrumar um lugar para ficar enquanto não sabemos aonde ir. Vamos achar um deck de acesso a Matrix, preciso fazer uma busca.

Decker estava minutos depois dentro da Matrix, seu avatar estava passando as telas com anúncios, quando localizou algo que lhe interessava: Um anuncio de apartamento a venda próximo. Ele pegou o endereço e acionou uma rotina de mascaramento temporizado. A tela ficou invisível e um pequeno timer somente visível ao avatar de Decker, apareceu no lugar da mesma. Ele tinha um dia antes do anuncio reaparecer.

Ao chegar no endereço do local, a porta estava obviamente trancada. Ao lado desta estava um console de acesso na parede. Decker examinou o console, era um modelo básico da Secures Inc. Ele colocou os dermatrodos e começou a digitar. Kara estava observando.

Na Matrix a luva tocou o livro, este desapareceu e um molho de chaves apareceu na mão. Na terceira chave, o cadeado abriu-se. Um bip soou e no console uma indicação de porta aberta apareceu. Eles entraram, a porta fechou e o console voltou a indicar que a porta estava trancada.

Era um apartamento em estilo oriental, tinha uma sala com poucos itens, uma cozinha com balcão que dava para a sala, um quarto com cama e um banheiro. Na sala havia um deck para acesso, que fora uma das coisas que Decker pesquisou no anuncio, uma holotelevisão, um console de comunicação e sistema de controle ambiental. Como havia sido colocado a venda a poucos dias, ainda havia algumas coisas pessoais e principalmente poderia haver alguma comida.

Kara estava admirada. Olhava tudo com entusiasmo.

- Decker, é lindo. Você comprou?

- Não. Só vamos ficar aqui menos de um dia.

Ela parecia decepcionada. Ao ver a cozinha, começou a vasculhar o refrigerador. Enquanto Decker vasculhou as janelas. Desta vez constatou que não haveria uma grade ou obstaculo caso precisasse sair pela mesma.

- Decker, eu posso fazer o jantar.

Ele estava sentado no sofá, o dermatrodo conectado no modo de stand-by.

- Escolha algo.

Após vinte minutos de intensa movimentação na cozinha, Kara foi na sala carregando uma caixinha. Decker recebeu aquela caixinha cheia de divisões e nela havia vários itens da culinária oriental : Sushis, temakis e mochis. Eram em pouca quantidade, mas em boa variedade. Decker estava espantado, sem palavras e por pouco não desceu uma lagrima do rosto. Não comia nada assim há anos. A vida de jóquei nômade não favorecia uma alimentação mais refinada. A dele era basicamente a base de barras energéticas.

- Decker não gostou, me desculpa... Desculpa... Prometo fazer melhor... Não tinha muitos ingredientes e... - Ela estava dizendo diante da pausa e da expressão dele.

Ele já estava devorando tudo antes dela acabar de falar.

- O que estava dizendo? - Ele perguntou com a boca cheia.

- Ahm... Que bom que gostou... Eu fiquei feliz. - Ela sorria de leve.

- Está ótimo. Nem esperava que houvesse alguma comida aqui. - Ele terminou, quando um bip surgiu na sua cabeça.

- Você recebeu uma mensagem - Uma frase com voz feminina soou.

Ele acessou a mensagem :

 

“D3c|<3r...

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P2 : V0c3 |\\\\\\\\\\\\\\\\/|3 d3\\\\\\\\\\\\\\\\/3 |_||\\\\\\\\\\\\\\\\/| 3|\\\\\\\\\\\\\\\\|c0|\\\\\\\\\\\\\\\\|7r0 :)

 

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XoXoXoXoXoX”

 

Desconectou os dermatrodos. - Como é que ela descobre tão rápido? - Falou alto, para ele mesmo.- Isso significa que vou ter que me encontrar com ela... Ahm... Mas que droga... - Ele pareceu afundar no sofá.

- Quem Decker? Quem que descobre tão rápido? - Kara perguntou ao seu lado.

- Uma criatura que vai me dar uma grande dor de cabeça em breve... - Fez uma pausa - Kara, vamos encontrar com o teu criador.

Os olhos dela pareciam brilharem.

- Vamos?

- Vamos. Temos que ir no distrito industrial. Faça a sua melhor expressão neutra e finja indiferença a tudo enquanto estivermos andando para lá. Fique atenta ao movimento, tem gente que está atras de você. O melhor é que fique perto de mim.

- Sim, Decker. É melhor que eu mude a aparência?

- Já arrumamos roupas para você. Seu rosto não pode mudar, então temos que te disfarçar de alguma maneira.

- Posso mudar os cabelos.

- Pode?

Ela parou por um momento frente a ele. Os cabelos aumentaram de tamanho até a altura dos ombros, depois a cor mudou gradativamente até atingir uma tonalidade vermelha.

- Nem vou lhe perguntar como é possível isso. Mas depois que encontrarmos seu criador, volte a ficar do jeito que estava, eu prefiro daquele jeito.

- Sim, Decker. Estou bonita?

- Sim, você está bonita.

- Obrigado, Decker.

- Mais uma coisa Kara.

- Sim, Decker.

- Você é mulher, tem que dizer “obrigada”, não “obrigado”.

- Ahm... Obrigada Decker.

Ele abriu o armário no quarto do apartamento, vasculhou as gavetas, as portas internas, as divisões e finalmente achou algo que poderia servir. - Use isso e cubra o rosto. - Jogou a ela um cachecol. Ela enrolou em volta da cabeça cobrindo a parte inferior do rosto. Os olhos ficaram de fora, mas ficou difícil reconhecer quem seria a dona daqueles olhos azuis.

- Estamos preparados para sair. - Ele disse. - Vamos.

Ele colocou o teclado embrulhado nas costas, checou a roupa e a arma. Saiu sendo seguida pela androide. A porta fora trancada e o registro de acesso apagado. Ambos chegaram ao nível da rua. Andaram pela multidão em estado de alerta, observando rapidamente todas as pessoas que se aproximavam. Kara estava próxima. Praticamente ninguém dava atenção aos dois andando juntos.

Passaram pelas portas envidraçadas da entrada da estação do levmag, Decker encostou um cubo de créditos na tela e a passagem fora liberada, eles entraram e sentaram nos bancos junto a parede da estação. O levmag chegou em minutos e parou na estação. Decker esperou uns segundos, enquanto as pessoas entravam no veiculo. Kara esperou junto, parada e imóvel. Olharam ao redor para detectarem algum perigo. Avançaram para o veiculo e entraram quando as portas estavam fechando. Sentaram em um dos bancos vazios. O levmag energizou sua base e começou a flutuar, avançando pelo tubo subterrâneo.

Os minutos foram passando e ele fora parando nas estações. Os passageiros foram se alterando conforme entravam e saiam. Até que a estação do Distrito Industrial, foi anunciada. Decker e Kara desceram na estação e seguiram porta a fora.

O distrito industrial abrigava uma área extensa que continha a maioria das industrias da cidade, mas também tinha muitas residencias, principalmente de trabalhadores da industria de renda mais baixa. Este distrito é um dos lugares mais sujos da cidade e a população, aquela que não trabalha nas industrias, nunca na sua vida iria para lá. Somente aqueles que estão querendo se esconder das autoridades, aqueles que buscam encontrar os marginais mais perigosos ou aqueles que não tem nada a perder. Os dois tinham que localizar a residencia e isso levou tempo. Tinham que percorrer as ruas estreitas e labirínticas, parando periodicamente para verificar se estavam sendo seguidos ou atraindo olhares indesejados.

Conseguiram localizar o condo 30 da quadra numero 123, conforme JesteRab havia indicado. Depararam com uma porta visivelmente arrombada. Decker puxou sua arma e disse para Kara ficar do lado de fora. Afinal, um androide domestico não ajudaria muito neste momento. Ele entrou lentamente com a arma a frente.

Os moveis do condo estavam destruídos e espalhados em todas as direções como se tivesse passado um furacão dentro do condo. Nada havia ficado inteiro da destruição causada pela força desconhecida.

Decker encostou em uma quina da parede e apontou a arma. Não parecia ter ninguém até que um golpe nas suas costas o empurrou junto com um som de algo quebrando, ele virou rapidamente com a arma a frente quando vários brilhos metálicos cruzaram o ar e um estampido cegou seus olhos por segundos. Ele recuou alguns passos e algum destroço atingiu seu calcanhar desequilibrando-o. No momento em que os brilhos cruzaram o ar novamente, ele bateu na parede e o teclado nas suas costas terminou de quebrar, desmontando em pedaços. Seu corpo caiu sobre os fragmentos dos moveis e na sua camisa e no sobretudo apareceram quatro cortes paralelos.

O sangue começou a descer pelo tórax, a dor cresceu rapidamente.

Ele pôde ver avançando em sua direção, chutando os destroços, um homem com camiseta surrada e calça cheia de correntes e farpas metálicas. Os braços eram implantes visíveis e nas pontas dos dedos tinham vibrolaminas. Na cabeça, um corte moicano alto e roxo, os olhos estavam escondidos atrás de um óculos de soldador com lentes grossas. Ele sorria com grandes dentes carcomidos.

Decker o reconheceu como um samurai punk e quando levantou a arma para disparar foi que percebeu que somente o cabo de sua arma estava em sua mão, o resto da arma fora cortado em pedaços.

O samurai levantou a mão esquerda. As laminas se projetaram um pouco mais e Decker sentiu que iria levar o golpe fatal.

Uma mão enluvada atingiu o lado da cabeça do samurai, fazendo-o cair lateralmente.

Era Kara.

O punk girou as pernas e ficou de pé. Um pouco de sangue desceu da boca e ele a limpou com as costas da mão. Ele já não sorria mais. Kara estava em uma posição de combate. O punk fez uma expressão seria.

- Então a ruiva quer brigar é? - Rosnou.

Decker não acreditava no que estava vendo. Kara não deveria saber combater.

Ela parecia focada no adversário e ambos estavam parados. As laminas saíram dos dedos quando o samurai abriu as mãos. Inclinou o corpo e avançou na direção de Kara. Ela chutou um pedaço da comoda na direção dele e ele o cortou em duas partes com um movimento rápido das mãos. Foi realizando golpes cruzados, que Kara estava bloqueando com movimentos erguendo as pernas dobradas e recuando alguns passos.

O punk saltou com os pés para a frente, mas Kara desviou do corpo que cruzou o ar e acertou uma parede. Ele continuou golpeando, entretanto parecia que a androide antecipava todos os movimentos desviando ou bloqueando todos.

Ele recuou e as vibrolaminas entraram nos dedos. Fechou as mãos e laminas longas saíram da lateral dos braços. Novos golpes, as laminas em direção do corpo de Kara e novos bloqueios impediram sequer que danificassem as roupas. Ela estava evitando o ataque, quando bateu com a mão esquerda no pulso direito, segurando o mesmo logo em seguida. O punho direito fechado girou a frente do corpo e atravessou o braço como se fosse um graveto. Uma explosão dos circuitos internos ocorreu e o punk recuou gritando.

- Meu braço! Meu braço! Maldita ! Maldita !

Ele puxou um pequeno cilindro de dentro de um bolso da calça e jogou a frente. Um clarão de luz cegou Decker. Ele só ouviu uma serie de ruídos metálicos sem conseguir compreender o que estava acontecendo.

Um estrondo forte.

Gritos masculinos.

Som de varias coisas quebrando.

Passos rápidos.

Decker tinha perdido a noção do que estava acontecendo. Tudo era apenas um monte de cores em movimento.

Kara? - Ele esfregou os olhos fechados, estavam doendo e a visão ainda não havia retornado. Estava vendo um vulto borrado se aproximando.

Um rosto parou a sua frente. Sua visão entrou em foco, quando viu que estava olhando para olhos vermelhos. Decker sentiu um frio subir pela sua coluna mediante o olhar mais assassino que ele viu na vida. A dor dos cortes estava aumentando e o sangue ainda descia.

Uma mão encostou na parede ao lado de sua cabeça e ele esperou por um golpe final, mas os olhos vermelhos e assassinos foram mudando para olhos azuis. A expressão suavizou para um olhar de panico quase instantaneamente.

- Decker? Decker !

Ela tirou o cachecol rapidamente e começou a enrolar ao redor do tórax dele. Os cabelos vermelhos diminuíram de tamanho e foram escurecendo até voltarem aos cabelos pretos e curtos.

Decker! Decker! Não morre Decker! Eu não quero ficar sozinha! Decker! - As lagrimas estavam descendo no rosto dela.

Ele já não entendia mais o que aconteceu. Aparentemente Kara ainda era um androide domestico, mas como que ela combateu daquele jeito? E o que foram aqueles olhos vermelhos?

Olhou para o condo, tinha sangue esguichado nas paredes e o braço cibernético estava quase todo destruído em meio aos destroços de comodas, roupas e muitos outros detritos. Na área próxima dele, ele pode ver os restos que um dia foram o seu teclado e os outros que foram sua arma. Sua camisa e o sobretudo estavam com cortes e estavam manchados de sangue. Kara estava com sangue e fluidos mecatrônicos espirrados nas roupas, fora isso, estava completamente inteira, nem parecia que havia lutado.

- Kara, eu não vou morrer.

Ela abraçou ele e ele sentiu a dor dos cortes. Estava com a mão na cabeça dela.

- Vou ficar com algumas cicatrizes, mas não vou morrer. Os cortes não foram profundos.

- Estou muito feliz. - Ela sussurrou.

- Só vou precisar descansar um pouco. Esse cachecol está funcionando como bandagem muito bem, obrigado Kara.

Ela sorria, enquanto ele passava a mão na cabeça dela.

 

 

 

( continua na terceira parte - neste link )

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