Star Trek Discovery - Context Is for Kings

Seguem minhas impressões sobre o terceiro episódio de Star Trek Discovery, os autores inovam onde não deveriam e não inovam onde deveriam. Alerta de Spoilers!

Por mais que os autores queiram fazer parecer, o conflito com os Klingons e a morte da capitão Georgiou não aconteceram por culpa de Michael Burnham. Os investigadores da Frota Estelar tem todos os indícios para chegar a essa conclusão e a própria Michael mais ainda. T’Vuma invadiu o espaço da Federação e se recusou a recuar quando percebeu a USS Shenzhou tinha se aproximado. Os Klingons são conhecidos por todos como expansionistas, se eles invadiram o território obviamente não iriam recuar com tentativas de negociação e promessas de paz. A tentativa de mostrar que os oficiais da Frota são politicamente corretos nesse caso fez com que parecessem ingênuos, para não dizer outra coisa. Temos várias outras cenas nas séries anteriores que mostram esse tipo de embate por onde os roteiristas poderiam ter se baseado.

Impossível não fazer um paralelo entre a cena de transferência dos prisioneiros com o resgate de Jyn Erso em Star Wars Rogue One. De repente Burnham é resgatada e levada para Discovery. Os roteiristas quiseram criar todo aquele clima de “projeto secreto”, para vermos os prisioneiros andando pela nave, vendo tudo e fazendo especulações. Da mesma forma Jyn mesmo sendo considerada criminosa, é levada ao quartel general secreto da rebelião. A quebra de segurança continua quando os prisioneiros são levados para almoçar junto com os tripulantes, da nave onde podem ouvir as conversas e tirar mais conclusões sobre a missão da nave, quando deveriam fazer isso na prisão, mas os autores queriam mostrar como Burnham é boa de briga.

Em mais uma cena que faz referência a Star Wars, Burnham que deveria estar presa, é colocada para ser companheira de quarto de uma cadete, patente estranha numa nave, já que cadete é um estudante da academia, seja da Frota Estelar ou em qualquer instituição militar, quando a pessoa vai para o serviço regular ela é no mínimo alferes, pelo regulamento da Frota Estelar. A referência à história de Lucas está ideia de Sylvia Tilly ser chamada de cadete para que Burnham tenha uma padawan.

O que tornava tão interessante para nós e tão estressante para a tripulação uma patrulha na Zona Neutra? A Frota Estelar escolhia as tripulações para patrulhar uma grande área do espaço, ficando praticamente sozinhas. Pela vastidão que tinham que patrulhar, pela distância que tinha do quartel General da Frota, pelo tempo que uma mensagem de socorro demoraria para chegar e também pelo tempo que uma eventual ajuda chegaria. Haviam centenas de estações, a maioria não tripuladas e equipadas com sensores, elas ajudariam numa invasão em larga escala. O temor era que a qualquer momento Klingons ou Romulanos intentassem alguma contra medida à rede de detecção da Federação e aproveitassem dessa vantagem, nesse caso, nenhum sistema de segurança substituiria um vigia bem treinado. Foi o que aconteceu em vários livros e episódios de Jornada, que faziam alusão à disputa na Guerra Fria usando espionagem e ciência para demonstrar ao inimigo superioridade.

Uma das histórias mais memoráveis foi no episódio Balance of Terror da série clássica, depois de diversos ataques a estações, a tripulação de Kirk se depara com a descoberta de que os Romulanos conseguiram inventar um sistema de camuflagem que fazia com que os sensores não conseguissem detecta-los. Foi preciso perspicácia da tripulação da Enterprise em perceber o que poderiam considerar nas leituras, que mudasse a abordagem dos sensores, para achar a nave inimiga. Seria como se de repente o predador ou a presa parasse de exalar seu cheiro característico e para achar o outro animal, ele teria que passar a ouvir seus passos ou sua respiração. Lembrou muito guerra submarina. Esse episódio nos dá a noção de como a tecnologia era restrita. Geralmente a humanidade primeiro revoluciona em termos da distância onde se pode ir, para só depois adaptar as comunicações. O interessante aqui é que os autores do episódio mesmo criando uma tecnologia e conceitos completamente novos tinham uma grande noção de que deveria haver limites para que o roteiro e o clima de tensão funcionassem.

Então chegamos à principal controvérsia que tenho com esse episódio. Lorca admite que pegou Burnham de propósito porque quer que ela ajude no desenvolvimento de um novo sistema de propulsão que usa organismos vivos, ele fala que poderiam viajar ao quadrante Beta em segundos. Isso é muito mais avançado do que a USS Voyager dispunha no século XXIV.

Enquanto tentam inovar com o visual dos Klingons e recriando tecnologias muito mais avançadas que na Enterprise e reformulando os poderes mentais dos Vulcanos, a história anda em círculos. Novamente temos uma guerra com os klingons, pelos mesmos motivos de sempre, trazendo aquela urgência de salvar o universo e fazendo o expectador ficar com aquele sentimento de “o nosso modo de vida está ameaçado”. Isso não é de todo ruim, mas quando comparado ao fanfic de Axanar e como eles contariam essa história, respeitando o pré-estabelecido, não tem como não lamentar.

A produção de Peters é mais verossímil no sentido de mostrar como toda a Frota Estelar estava engajada na guerra, mostra que as agências de espionagem não deixariam passar despercebia a intenção de um ataque em larga escala, e que diante de uma vitória retumbante como foi nos primeiros momentos da guerra, os Klingons jamais iriam embora, eles avançariam até se consolidar em suas expansões. Infelizmente alguns conflitos só param quando você reage e bate mais forte, o inimigo só para quando percebe que também tem muito a perder. O politicamente correto que os autores tentaram dar a capitão Georgiou não funcionou nesse caso.

O politicamente correto das redes sociais se faz presente também na concepção da Burnham como personagem. Forçaram uma barra para dar a ela o estigma de traidora, que ela não tem, porque os autores queriam que o espectador se identificasse com ela como alguém que sofre preconceito. Como qualquer outro tipo de ataque seria inaceitável nos dias de hoje, a intensão de macular a personagem dessa forma, faria com que as pessoas se identificassem com o seu drama e passassem a gostar dela. Querem que ela se torne símbolo de alguma coisa, porque a história como foi concebida até agora não precisava que a comandante fosse uma traidora para funcionar.

Estou bastante decepcionado com o resultado. Para continuar a assistir eu teria que fazer concessões demais. Talvez se a série fosse produzida 20 ou 30 anos depois de Voyager, funcionaria, apesar de alguns aspectos continuarem incongruentes com o que vimos até agora de Jornada nas Estrelas, mesmo que Discovery se passasse no futuro. O presidente da Paramount dona dos direitos da série a chamou publicamente de franquia medíocre, então ele deu aos roteiristas carta branca para fazer o que quiserem. Quando vi nos créditos que era a mesma turma dos filmes recentes tinha perdido a esperança. E agora depois de ver tudo se confirmou infelizmente.

As três fotos que coloquei no corpo dos artigos traduzem como eu me sinto, elas pertencem à cena da destruição da Enterprise no filme À Procura de Spock. Mas ao contrário do que diz McCoy na cena que se segue a foto logo acima, não há mais esperança dessa vez. Cada produto ou filme que lançam hoje, está mais distante do que deveria ser Jornada nas Estrelas.

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