Resenha de Westworld Primeira Temporada

Vários amigos comentaram dessa série, falando muito bem dela. Mesmo não terminando a primeira temporada ainda seguem minhas impressões. Para quem não assistiu recomendo que o faça antes de ler. Tive que revelar algumas coisas para pautar minha analise do roteiro.

O cenário é sensacional, e o tema também. De cara vemos que a produção de cada episódio tem um custo bem alto. O elenco é muito bom, alternando entre novatos e alguns atores consagrados. Eu posso estar errado, mas presumo que a história não deva demorar muito para concluir. Não apenas por causa do seu alto custo, mas porque nesse momento não consigo vislumbrar muitos desdobramentos na maneira em que o tema inteligência artificial foi tratado até o momento.

A série fala sobre um parque temático, onde os visitantes assumem papeis de pessoas na época do velho oeste. Escolhem seus trajes e interagem com réplicas humanas perfeitas. Textura de cabelo e pele muito próximas das reais. Não fica claro se alguém conseguiria distinguir um humano de uma réplica. Isso é reforçado pela inteligência artificial das máquinas que é quase perfeita.

Refazendo a frase, ela é perfeita, sob a ótica conceitual pura, ou seja, as réplicas têm consciência e acreditam ser pessoas que vivem na época da expansão americana para o oeste, não há nada em seu modo de agir que indique o contrário. Dizer isso me fez perceber que estou me contradizendo, a maneira de saber quem é réplica ou humano seria descobrir quem está agindo totalmente dentro do papel do tema do parque.

Algumas partes são complexas de entender. Apesar de o parque promover dezenas de histórias paralelas, algumas terminando em um dia outros em vários dias e semanas meses etc. Não parece ter uma separação entre elas. Na verdade as interações entre os personagens tanto hospedes quanto réplicas não dão indício algum de quanto tempo se passa. Mesmo um ricaço que tem uma boa grana pra gastar, não conseguiria ficar anos lá jogando RPG live action.

Não está claro também como é feita a gestão das histórias. Parece que cada réplica é única tanto em aparência quanto em modo de pensar. Então não teríamos uma história acontecendo mais de uma vez com os mesmos personagens e hospedes diferentes. O que nos leva à questão: Evitar problemas entre as replicas e os clientes é fácil. Mas como lidar com brigas e desavenças entre clientes? Por que as réplicas são encaradas como simples brinquedos, onde sofrem todo tipo de agressão e violações que os hóspedes não fariam fora do parque sem serem severamente punidos. Mas numa situação onde clientes se encontrem sem saber quem é “real” e quem é réplica, causaria um enorme problema em que as equipes de controle do parque não chegariam a tempo de evitar um dano severo.

Sob a ótica da equipe de manutenção, eles passam horas de trabalho diário restaurando as réplicas de tiros, violência física e sexual, mutilações e todo o tipo de dano causado pela inconsequência dos hospedes incentivada pela cultura dos donos do parque. Durante essas seções as mentes das réplicas são processadas, para que esqueçam dos traumas que sofreram, mas algumas dão defeito em suas consciências e são aposentadas, porque estão se dando conta do que são e do que estão sofrendo. Alguns membros das equipes de reparos perceberam isso e mesmo estão encobrindo o fato, cada um a sua maneira, esperando algum tipo de reação ou de evolução das réplicas.

Apesar da premissa inteligente complexa, apesar dos dilemas filosóficos de grosso calibre, o desenrolar até agora parece sofrer do efeito "muita espuma e pouco chopp". A história anda muito em círculos, dezenas de personagens são apresentados, tanto hospedes quanto réplicas. Muitos diálogos são apenas retórica. Muita informação e mistério jogado na nossa cara, chegando num nível onde você não sabe o que é realmente importante, ou o que vai ser descartado, isso quando não redundante, tipo cenas de 10 minutos de 5 réplicas diferentes mostrando que estão adquirindo a consciência do que são. Nichos diversos com histórias paralelas que não temos certeza que um dia vão se encontrar, alternâncias entre sonhos e cenas que realmente acontecem para o personagem, que me remetem a uma certa série numa ilha que eu abandonei, depois de ver dois episódios, por achar que estava sendo enganado.

Não vemos nada do mundo real, da projeção de como seria a nossa sociedade dentro do universo da série. Só vemos o que se passa no parque, e nos dá a impressão que nada mudou la fora, é como se fosse a sociedade de hoje e que da noite para o dia alguém fabricasse uma consciência artificial e isso não fosse mudar absolutamente nada em nossa sociedade. Sei que todo universo ficçional tem suas mentiras, afinal de contas é ficção. Mas quando isto esta associado a palavra científica, sempre espero aprender alguma coisa e espero que o roteiro faça um exercício para nos ensinar alguma coisa ou faceta de nossa sociedade real.

Notem no último parágrafo utilizei o termo consciência artificial, que vai muito além da inteligência artificial. Pensando nos dias de hoje, as pesquisas com inteligência artificial se baseiam em modelar um caso real matematicamente, isso é o significado da palavra algorítimo, um conjunto de passos lógicos para realizar uma tarefa. Depois foi adicionada a análise estatística e um a atualização periódica dos dados que servem de base para essa análise permitindo a tomada de decisão, mas apesar de ser capaz de automatizar algumas atividades bem complexas e substituir várias pessoas já nos dias de hoje, isso é algo muito rudimentar, está longe de ser uma consciência, de saber o que você é, quais os aspectos te tornam único, ter vontade própria e muitas vezes ter uma carga emocional que influencie em suas decisões.

Não importa que o seriado diga que só os dois cientistas foram capazes de desenvolver a consiência artificial e toda a retórica usada em torno disso, para chegar nesse nível há toda uma comunidade científica indo na mesma direção. Se os cientístas do parque já criaram a consiência perfeita, com a réplica humana perfeita, os avanços da área seriam tão enormes que recorreríamos à partes sintéticas para substituir as reais e um problema social enorme causado pelas pessoas sendo substituídas em massa por trabalhadores sintéticos que não precisam ser tão perfeitos quanto os do parque para realizar a maioria das tarefas. Citando um exemplo real apesar de Santos Dumont e os Irmãos Wright serem famosos por inventarem o avião, muita gente estava nessa corrida. Dumont fez o avião perfeito, levantava voo e pousava, mas o projeto dos irmãos Wright chegou bem perto e já pode ser usado na evolução dos projetos futuros.

Ainda tenho grandes espectativas e acho que a série é muito boa. Mas gostaria que os roteiristas nos dessem uma direção mais clara da história que pretendem contar. E você gostou? Comente!

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