Superman Entre a Foice e o Martelo

Estava arrumando minha estante de casa e me deparei com várias das preciosidades que tenho, e essa é uma delas. Inspirado por um debate que tive com alguns amigos há algum tempo, resolvi escrever esse artigo revisitando essa série, que é fundamental se quisermos entender o personagem Kal\'El.

Superman Entre a Foice e o Martelo é uma série de três partes escrita por Mark Millar com o desenho de Dave Johnson e arte final de Andrew Robinson. Foi publicada originalmente nos EUA em 2003 com o nome original de Red Son, chegando em terras tupiniquins pela Panini em 2006. A série discorre sobre o que aconteceria se Kal\'El tivesse caído na União Soviética e não nos EUA.

Eu particularmente adoro exercícios desse tipo, influenciado pela ficção científica, meu gênero literário favorito, onde em grande parte de seus roteiros, extrapola o que um evento ou elemento novo pode ou não trazer de impacto à nossa sociedade e à vida das pessoas.

Esse artigo como a maioria dos que escrevo, não tem intensão de resumir ou contar sobre o que foi narrado, ou seja, não farei spoilers, entretanto quero analisar e contextualizar algumas coisas que são muito interessantes nesse grande trabalho de Mark Milar.

A história nos remete à origem do personagem, ao contar a história dele caindo na URSS é óbvio que tem que se falar disso, mas vai muito além. Não só fala da origem de Kal\'El mas também nos leva ao contexto de sua origem nos quadrinhos, no momento histórico em que foi criado e na influência que a guerra fria teve no personagem. Ao revisitarmos algumas obras nos quadrinhos e na TV da época, veremos que os heróis de quadrinhos também foram largamente usados para fazer propaganda governamental para a juventude. A Marvel tinha o Capitão América como o maior representante disso, e em um dado momento a DC teve que entrar nessa vibe também, isso explica porque um alienígena e uma amazona grega usam roupas com as cores da bandeira dos EUA.

Dito isso Millar toma o cuidado de fazer referências, pegar personagens, personalidades, discursos, narrativas e propagandas da época feitas nos EUA e coloca-las como sendo feitas na URSS. Ficou sensacional. Nos ajuda a entender quais os objetivos da propaganda e como devemos ter cuidado com ela. Aspectos são exacerbados enquanto os que não interessam são abafados. Cabe a nós fazermos uma análise mais profunda do que está acontecendo e esquecer esse pensamento de que tudo deve vir mastigado e pronto para que aceitemos como verdade.

Outra coisa que deve ser dita. Millar coloca o Super-Homem, só os mais velhos o chamam assim ainda, com os poderes que tinha em sua origem antes de Crise das Infinitas Terras. Mais uma referência às suas origens. Para quem não sabe, o Universo DC, imagino por uma questão criativa e não judicial para simplificar sua relação com seus autores, era dividido onde cada título era num mundo paralelo, O Batman tinha a sua \"Terra\" que não falava com a \"Terra\" do Super-Homem que não falava com a dos Superamigos e assim por diante. Isso tornava as coisas difíceis de acompanhar. Um fã do Batman, ia encontra-lo completamente diferente quando lesse uma revista dos Superamigos. Então em um dado momento eles tomaram a decisão, ao meu ver acertada, de unificar todas as Terras numa só e todos os personagens passarem a existir numa única linha temporal.

Nesse processo, que provavelmente deve ter simplificado muito o trabalho editorial e criado uma visão diferente da DC sob o ponto de vista comercial, muitos personagens morreram, alguns foram mudados e outros tiveram seus poderes alterados ou diminuídos e esse foi o caso de Kal\'El. Essa é uma opinião pessoal minha que muitos devem discordar mas segue a linha do que disse no artigo sobre magia no RPG. Antes de crise, o Super-Homem era tratado como um Deus, não havia praticamente nada que ele não pudesse fazer. Inventavam-se poderes dos mais variados e esdrúxulos. Usando como exemplo o beijo dado em Lois Lane que a fez esquecer que Clark Kent era a identidade secreta do homem de aço em Superman II, ou fazer a terra girar ao contrário e voltar no tempo em Superman I. Há uma extensa lista, mas o cerne da questão é que não ter um limite para os seus poderes, torna muito difícil escrever roteiros interessantes para ele. Algum sempre vai pensar numa habilidade tirada da cartola para resolver os dilemas lhe tirando credibilidade e lhe tornando desinteressante.

Entretanto Millar faz um grande trabalho ao focar no lado humano, na personalidade de Kal\'El que se mantém intacta, mesmo sendo criado sob um outro ponto de vista. Seus poderes apesar de usados num altíssimo nível, ao ponto das pessoas temerem ser ouvidas nos EUA mesmo ele estando na URSS, nada fora dos padrões foi utilizado. A forte mensagem de esperança que o kriptoniano sempre trouxe foi mantida. O exercício nos ajuda a entender de fato como é o personagem. Coincidentemente Millar anos mais tarde faria a mesma coisa com o Capitão América, em outra obra prima sua A Guerra Civil, escrita para a Marvel.

E você? Também já leu esse clássico? Comente!!

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  • Guest - Ogro

    Fala, Chança!!!!

    Gostei do texto...
    Essa é uma das poucas estórias do Super que eu curto.

    Um grande abraço do Ogro!!!

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Guest - Ogro
Fala, Chança!!!! Gostei do texto... Essa é uma das poucas estórias do Super que eu curto. Um grand...
Imaginava que Batman e Superman ganharia vários prêmios. Desanimei completamente de escrever uma res...
Também tive dificuldade de escrever essa resenha sem estragar as surpresas que o filme traz. Levei u...
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