Isaac Asimov sobre os bons tempos de outrora e a importância da Literatura de Ficção Científica

O Brasil não é exatamente um primor em matéria de Ciências, apesar de termos alguns dos melhores cientistas do mundo como o Miguel Nicolelis e a Suzana Herculano-Houzel, cujos trabalhos são reconhecidos e apreciados pela comunidade científica internacional. Entretanto, o desinteresse do brasileiro por Ciências parece notório, como estivemos conversando em nosso encontro extra-oficial dos simpáticos integrantes deste site. Podemos estar errados, é claro, mas pergunte à qualquer transeunte sobre temas como velocidade da luz, energia nuclear ou Teoria da Evolução e confira por si mesmo. 

 

- \"Tá, mas o que isso tem a ver com Ficção Científica?\"

Como assim oque tem a ver? Tem tudo a ver!! A Ficção Científica não se chama \"científica\" à toa. Há toda uma preocupação de seus autores em conceituar e contextualizar suas histórias levando em conta o Conhecimento Científico conquistado pela Humanidade, ao longo dos séculos. Conhecimento este que, por muitas vezes, foi conquistado com \"sangue, suor e lágrimas\", literalmente. Assim podemos ver/ler John Carter sentir os efeitos da gravidade menor de Marte na história de Edgar Rice Burroughs; e em Contato, de Carl Sagan, o autor se preocupar em explicar como Ellie Arroway (a personagem de Jodie Foster na versão cinematográfica) vai até o centro da galáxia e volta através de um buraco de minhoca, só para citar alguns exemplos.

Se a Ciência de um modo geral, pode parecer um assunto \"chato\" para a maioria do público leigo, a Ficção Científica tem aí um papel fundamental de disseminar o conhecimento científico por meio de histórias, romances, novelas, contos, seriados e filmes, que envolvam personagens que possam cativar e fazer o público se identificar com seus dramas e suas premissas/missões. Convenhamos que não há um único ser humano neste mundo que não goste de histórias.

Isto posto, trago aqui um texto de Isaac Asimov, escrito para o editorial da saudosa \"Isaac Asimov Magazine\", que por cerca de dois anos, na década de 1990, fez a alegria dos leitores brasileiros de Ficção Cientifica. Se hoje as bancas de jornal continuam lotadas de publicações no estilo romances fast-food e dezenas de novelas de \"Julia\" e \"Sabrina\" (nada contra o gênero), no passado tínhamos a alternativa de ler a Isaac Asimov Magazine, que durou 25 edições lançadas pela Record Editora. A maioria das histórias eram traduzidas da edição gringa, mas os editores daqui chegaram a abrir espaço para publicação de autores nacionais.

Atualmente não existe absolutamente nada de histórias SciFi nas bancas, e continuamos órfãos e carentes de uma publicação do gênero. Seria bom ver uma revista dessas circulando nas bancas de todo pais, o que só ajudaria a aumentar o público, estimulados por um formato de leitura rápida e acessível a qualquer um. Fica aí a dica para editoras que queiram investir no filão, principalmente pra Aleph, que tem feito um trabalho honroso trazendo clássicos e o melhor da Ficção Científica pras livrarias de todos país.

Bem, depois dessa looooonga introdução, vamos ao que interessa e aproveitar o recado do mestre Isaac Asimov, sobre Literatura SciFi e \"Os bons tempos de outrora\", em que nos mostra a bobagem de achar que a literatura SciFi era melhor no passado. No Brasil, a única coisa boa de outrora foi ter tido a revista nas bancas. Quem sabe não volta um dia?  

 

 

 

OS BONS TEMPOS DE OUTRORA

Por Isaac Asimov

 

Sou muito dado ao otimismo com relação à ciência e tecnologia, e, nas minhas conferências, costumo pintar uma imagem rósea do futuro, contanto, naturalmente, que os novos conhecimentos sejam usados com sabedoria (o que, devo admitir, não tem sido a norma). Nem sempre a platéia concorda comigo. Lembro-me de uma sessão de perguntas e respostas em que um jovem se levantou e contestou minha afirmação de que a tecnologia havia melhorado a qualidade de vida humana.

 

- Você teria sido mais feliz na Grécia Antiga? - perguntei.

 

- Teria - afirmou o rapaz, com a segurança que só os jovens parecem ter.

 

- Como escravo? - perguntei.

 

O rapaz se sentou sem dizer mais nada.

 

O problema é que as pessoas recordam os “bons tempos de outrora” (uma expressão que me causa profundo desagrado) de forma extremamente parcial. Para muitos, a Grécia Antiga significa sentar-se na ágora e bater papo com Sócrates. Roma Antiga é freqüentar o Senado e discutir política com Cícero. Eles não se lembram de que nas duas civilizações apenas uma pequena elite aristocrática se dedicava a essas atividades e a imensa maioria da população era composta de trabalhadores braçais, camponeses e escravos.

 

É muito bonito romancear a Idade Média e sonhar em ir para a guerra usando uma armadura reluzente, mas para cada “cavaleiro andante” havia noventa e nove servos e aldeões que eram tratados pior que animais. Fico irritado com os admiradores incondicionais da América rural do século dezenove, quando tudo o que se fazia, aparentemente, era ficar sentado no quintal bebericando sidra. Além disso nos períodos de recessão não havia nenhum senso de responsabilidade social para com os desempregados; e a total inexistência de remédios eficazes, incluindo os antibióticos, fazia com que a mortalidade infantil fosse elevadíssima e a expectativa de vida muito menor que hoje em dia.

 

Também não me deixo impressionar pelos que olham para uma mansão construída em 1907 e exclamam, com um suspiro: “Puxa, não fazem mais casas assim! Veja quantos detalhes! Veja quanto capricho!” Perco a paciência com as pessoas que estão sempre falando dos velhos tempos, quando os artesãos tinham orgulho de sua profissão e faziam de cada objeto uma obra de arte única, enquanto que hoje em dia máquinas sem alma produzem cópias e mais cópias de artigos baratos. Vamos colocar as coisas na sua verdadeira perspectiva. Você sabe por que era possível construir lindas mansões em 1907? Porque a mão de obra era barata, de modo que você podia se dar ao luxo de contratar dezenas de empregados para construir a mansão e dezenas de criados para mantê-la funcionando. E por que a mão de obra era barata? Porque a maioria das pessoas vivia em um estado permanente de fome e miséria. O fato de que alguns podiam ter mansões estava ligado de perto ao fato de que quase todos viviam em casebres.

 

Da mesma forma, quando os artesãos produziam laboriosamente obras de arte, essas obras eram em número muito reduzido e constituíam o privilégio de uma reduzida casta de patrícios (ou nobres, ou banqueiros); o povo tinha que se virar mesmo era com casas de pau a pique.

Se as mansões são raras hoje em dia porque a população em geral vive muito melhor, fico satisfeito com isso. Se os objetos utilitários são menos artísticos para que mais pessoas possam desfrutá-los, acho que a mudança foi para melhor. Isso me torna aquele personagem terrível, um “liberal” que se preocupa com o bem estar dos pobres, e não com os yuppies? Acho que sim, mas há mais. Meu ponto de vista também é bastante prático e egoísta.

 

Minha primeira mulher uma vez se queixou de que não conseguia encontrar alguém para ir à nossa casa uma vez por semana para fazer alguns serviços domésticos. Ela disse:

 

- Gostaria de ter vivido há um século, quando era fácil arranjar criados.

 

- Pois eu, não - repliquei 

- Porque nós seríamos os criados.

 

Acontece que não descendo de uma longa linhagem de aristocratas, de modo que certamente não seria um dos poucos privilegiados destinados a gozar das boas coisas da vida. O mesmo é verdade para a maioria dos que recordam com saudade os “bons tempos” de outrora, mas tenho consciência disso, e eles, aparentemente, não.

 

Que é que tudo isso tem a ver com a ficção científica? Vou explicar para vocês.

 

Quando comecei a escrever ficção científica, era o menor e mais humilde ramo da “literatura barata”, e já era considerada como um gênero subliterário. Isso não me incomodava nem um pouco. Considerava a ficção científica como o trabalho mais nobre da humanidade; se os outros não concordavam comigo, pior para eles. Entretanto, havia muitos autores e críticos de ficção científica, especialmente em anos mais recentes, que se aborreciam com isso e não queriam ser associados a uma coisa tão prosaica como literatura barata. Eram aristocratas por natureza, suponho, e gostariam de ser tratados como gênios literários.

 

Em conseqüência, surgiu uma lenda. A lenda dizia mais ou menos o seguinte:

 

Antigamente, a ficção científica era uma forma respeitável de literatura, praticada por todos os grandes escritores: Edgar Allan Poe, Nathaniel Hawthorne, Edward Everett Hale, James Fitz O’Brien, Julio Verne, H. G. Wells e outros. Seu trabalho era parte da grande tradição das belas letras e as pessoas viviam dizendo uma para as outras: “Você já leu o último maravilhoso romance de ficção científica?”

 

Foi então que apareceu um vilão chamado Hugo Gernsback e criou uma revista dedicada inteiramente a obras de ficção científica. Reuniu em torno de si um bando de escribas que produziam o que havia de pior, contos de carregação, malfeitos, sem nenhum interesse para qualquer pessoa mais ou menos esclarecida. Depois disso, nenhum escritor decente teve mais coragem de escrever ficção científica e nenhum leitor decente teve mais coragem de ler ficção científica. A ficção científica se tornou um “gueto”, um refúgio para escritores medíocres, e quando um ou outro escritor de ficção científica com algumas qualidades tentava entrar na literatura convencional, era prejudicado pelo mau cheiro do gueto, do qual não conseguia mais se livrar.

 

Besteira!

 

Procure ler alguma coisa da chamada “ficção científica” do século dezenove. Logo verá que a maior parte pode ser mais bem classificada como obras de terror ou fantasia. Sim, é possível encontrar bons trabalhos (embora não sejam melhores que os melhores trabalhos de ficção científica do século vinte, se descontarmos a psicose dos “bons tempos”), mas o importante é que havia muito pouca coisa naquele tempo que merecesse realmente ser classificada como ficção científica. O que Gernsback estava tentando fazer era produzir ficção científica para as massas. Naturalmente, havia muito pouca gente escrevendo ficção científica em 1926, pela simples razão que o mercado para o gênero era quase inexistente. Gernsback começou, portanto, republicando obras de ficção científica do século dezenove. Logo, porém, que o mercado de ficção científica começou a se expandir, graças à própria revista, os jovens escritores sentiram vontade de experimentar o gênero. Naturalmente, não se saíram muito bem nas primeiras tentativas, mas foram melhorando com a prática.

 

Hoje em dia, temos escritores de ficção científica que se consideram grandes figuras literárias e lamentam o fato de não estarem vivendo nos bons tempos de outrora, quando a ficção científica era um gênero respeitável, e por isso têm que passar a vida tentando escapar do gueto.

Por que não ocorre a eles que fora os escritores que trabalhavam para as revistas de ficção científica, o gueto desprezível, que, depois de décadas de trabalho duro, baixa remuneração e quase nenhum reconhecimento, criaram pouco a pouco um mercado de peso, no qual hoje em dia essas figuras literárias podem obter uma renda nada desprezível?

 

Isso seria impossível se as coisas continuassem como no século dezenove, quando a ficção científica era produzida em doses homeopáticas e lida por um público reduzido. Suponho que deve ser porque teimosamente continuo a me considerar como um dos muitos, e não apenas um membro da elite, que insisto em me identificar como escritor de ficção científica, embora escreva em tantos outros campos que posso, sem faltar com a verdade, intitular-me de muitas outras coisas. (Existem autores que praticamente só escrevem ficção científica e mesmo assim buscam outros rótulos para que se sintam mais importantes).

 

Quando Joel Davis sugeriu que eu associasse meu nome a uma revista de ficção científica, hesitei, mas apenas porque achei que não merecia a honra; temia que me acusassem (mais uma vez) de ser vaidoso e pretensioso; receava que outros autores se recusassem a escrever para uma revista com o nome de um colega que não era melhor do que eles sob nenhum aspecto. Depois que me libertei dessas dúvidas, minha hesitação acabou. Jamais me ocorreu que por dirigir uma revista chamada Isaac Asimov Magazine pudesse estar afundando ainda mais no “gueto” e tornando mais difícil a aceitação de minhas obras em outros gêneros literários. Na verdade, posso assegurar que isso não ocorreu. Em meio século de atividade profissional, jamais uma obra minha foi recusada simplesmente porque sou um escritor de ficção científica. Pelo contrário; freqüentemente tenho me sentido culpado pelo fato de que as pessoas me julgam com condescendência por saberem que sou autor conhecido de ficção científica.

 

Esta, portanto, é a minha tese: toda essa conversa a respeito do “gueto” da ficção científica não passa de uma variante da velha farsa dos “bons tempos de outrora”.

 

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  • Eu concordo em parte, porque acho que na época em que ele escreveu o texto FC estava em seu auge ou bem próxima disso. Acho que um saudosimo nos nossos tempos cabe já que nem revista com contos temos mais, a maioria dos livros que vemos nas livrarias são reedições de livros de sucesso, ou livros que serviram de base para algum filme. A FC de qualidade sumindo da TV e quase extinta no cinema. Tenho a sensação que o saudosismo da boa época da FC para nós é cabível. O que antes era uma coisa casual e comum termos sempre um bom trabalho num livrou ou filme de FC. Assumo um mea culpa aqui, pois posso estar errado, mas a última coisa boa nova e original que tivemos foi o filme Lunar, e isso tem mais de 2 anos. Isso se agrava por não termos acesso ao material japonês onde as marés ainda estão melhores.

    Quando restringimos o ocidente para falar apenas do Brasil a situação piora ainda mais. Eu sei que relações interpessoais e questões sociais são complexas e rendem bons roteiros, mas precisamos dar atenção às ciências também, mas como podemos fazer isso com o numero de analfabetos funcionais que temos aqui. E não somos um povo com QI baixo, só temos preguiça e uma profunda falta de treinamento pra desenvolver e analisar as coisas. O mesmo brasileiro que leva 10 minutos pra descobrir como mexer no celular com Android não consegue fazer uma multiplicação, juros simples, imagina discutir sobre gravidade ou velocidade da luz. Alias a primeira barreira a ser rompida seria explicar a diferença entre astrologia e astronomia, pois muita gente acha que é a mesma coisa.

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  • Guest - Maykon

    \"Alias a primeira barreira a ser rompida seria explicar a diferença entre astrologia e astronomia, pois muita gente acha que é a mesma coisa.\"
    ------------------
    Isso não é previlégio só do Brasil:
    http://observationdeck.io9.com/very-few-americans-belive-astrology-is-scientific-1529371984/1529915399/+riamisra

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  • Guest - Maykon

    Pense nisso: será que o nível da ficção científica da TV e do cinema realmente piorou? Ou fomos nós que crescemos e ficamos mais exigentes? ;)

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