Conto de Jornada nas Estrelas: Retomando Minha Vida

Recentemente Grace Lee Whitney nos deixou. Para quem não lembra, ela fez o papel da ordenança Janice Rand na série original de Jornada nas Estrelas e reprisou o papel fazendo pontas em alguns dos filmes. Para homenageá-la resolvi publicar um conto que escrevi há alguns anos, quando pretendia desenvolver algumas aventuras da tripulação da Excelsior sob o comando de Hikaru Sulu. Espero que gostem. Grace descanse em paz!

Capítulo 1: Retomando Minha Vida

A calma no ambiente é quebrada pelo barulho agudo do despertador. Uma mão pequena faz o som cessar após um toque. A mesma mão esfrega os olhos sonolentos, enquanto a mulher boceja e se contorce, espantando a preguiça. Após alguns minutos para acostumar-se à ideia de que já era hora de se levantar, ela deixa a cama com o quarto ainda escuro e vai cambaleando de sono até o banheiro. Suas mãos sub a torneira fazem a água jorrar. Ela lava o rosto, faz um bochecho e cospe a água na pia.

- Computador. Luzes a um quarto.

Uma luz baixa acende e ela fecha os olhos até se acostumar, para então abri-los depois de alguns segundos e deparar-se com a imagem no espelho. Contempla os seus cabelos louros, lisos e cortados na altura do ombro. Recorda da época em que eles iam até o quadril e do tempo que passava fazendo penteados complexos e trançados, para não deixá-los fora do regulamento. Ela pega um pente na gaveta ao lado da pia e começa a usa-lo. Cortara os cabelos na altura dos ombros por achar mais prático e mais bonitos assim. Não tinha mais o tempo livre de outrora. Agora era mais madura e cheia de responsabilidades. Agora ela a comandante Janice Rand, primeira oficial da USS Excelsior.

Seguindo o conselho de seu amigo Sulu, que sempre dizia que ela tinha muito potencial, Janice deixou a Enterprise após passar no exame de admissão da Academia da Frota. Apesar de ser mais velha que a média dos alunos, fez muitos amigos na Academia. Nunca procurou ser uma aluna exemplar. Mesmo encarando os estudos com muita responsabilidade e seriedade, queria aproveitar o tempo na Terra com os amigos. Numa de suas saídas e noitadas, conheceu Brian Ramsey o filho do dono de um restaurante onde ela ia sempre com os amigos. Namoraram até que Janice escolheu seguir sua carreira e aproveitou a oportunidade de voltar a Enterprise, então sob o comando do capitão Decker, como chefe de transporte.

Após sua segunda missão de cinco anos a Enterprise volta à Terra. Janice e Brian nunca deixaram de se corresponder, ela então pede transferência para a Base Estelar 001, em órbita da Terra, após aceitar um pedido de casamento dele. Casaram-se tiveram duas filhas, Carolyn e Meryl e foram muito felizes juntos até as desavenças sobre a educação das meninas começarem, quando as duas entraram na adolescência. Brian era extrovertido calmo e quase nunca se preocupava com o futuro, isso contrastava com o jeito sempre controlador dela. No inicio essa característica a encantou e contrabalanceou sua maneira de ser, mas Janice não imaginava que ele era assim em relação a tudo. Protegido pelos pais ele era permissivo com as filhas, ao contrário de Janice que sempre foi incentivada a batalhar pela sua vida, e não conseguia passar isso para as filhas que eram sempre protegidas pelo pai.

Janice então começou a sentir-se excluída e a relação entre ela e a família já não era tão boa. As filhas a tinham deixado um pouco de lado e eram muito apegadas ao pai. Mas ela não conseguia suportar a ideia das filhas não terem a menor capacidade de batalharem sozinhas. Achava que iam aprender com a vida, mais tarde e de forma muito mais dolorosa.

Essa distância a fez pensar na carreira novamente, Janice já era Tenente Comandante quando o comando da USS Excelsior foi oferecido a Sulu. Durante pesquisas para montar sua equipe, Sulu deparou-se com o bom currículo da velha amiga. Imediatamente ela se tornou o primeiro nome da lista, ele então foi procura-la para lhe fazer o convite.

De volta ao presente, Janice termina o seu banho, se enrola na toalha e vai buscar o seu uniforme no armário. Veste-se em alguns minutos e vai para o espelho, vaidade é uma coisa que nunca vai deixar para trás. Ao ver sua imagem de uniforme e olhar para a insígnia de comandante, Janice sente orgulho de si e se lembra da conversa que teve com Sulu quando ele lhe fez o convite para o posto.

Janice estava na sala que dividia com mais 30 pessoas de sua equipe, na Base Estelar 001, atolada até o pescoço com relatórios de custos e orçamentos de reparos e reformas de 25 naves da frota que ocorreriam nos próximos meses. Da análise e aprovação dos relatórios pela sua equipe, dependia todo o cronograma das docas 3 e 4. Por isso o trabalho não podia atrasar, causaria muitos prejuízos.

De sua mesa do fundo da sala ela tinha a visão da porta, que chamou sua atenção quando abriu, anunciando a presença de um amigo que não via há muito tempo. Sulu sorri quando sente que foi percebido, e vai na direção da sua amiga.

- Hikaru há quanto tempo! Diz Janice enquanto dão um abraço como qualquer dupla de amigos que não se vêem há muito tempo.

Janice então vira-se para sua equipe e apresenta a eles o seu amigo.

- Minha equipe esse é o... Ela se vira para fitar a insígnia. ... Capitão Sulu. Capitão Sulu esta é minha equipe.

Sulu dá bom dia a eles, que respondem ao cumprimento.

- Como vai Janice?

- Eu vou muito bem. Como estão Demora e Hideki?

- Demora já é uma moça, está decidida a entrar na Academia também. Hideki está na casa da mãe. Acabei de vir de uma licença de alguns meses e passei todo o tempo com eles, mas sabe como é, uma hora teria que voltar para as estrelas. E suas filhas como estão?

- Elas também já são moças, mas às vezes dão mais trabalho do que se fossem bebes.

Ambos riram.

- Tem tempo para tomar um café com um velho amigo?

- Claro!

- Zimbatu vou dar uma saída e já volto, qualquer coisa me chame pelo comunicador.

- Sim senhora! Responde um jovem negro africano enquanto concorda com a cabeça para sua chefe.

Durante a caminhada, os dois amigos conversam sobre suas vidas e carreiras desde que deixaram de servir juntos, após a segunda missão de cinco anos da Enterprise. Alguns corredores e turboelevadores mais tarde, eles entram no restaurante, que tem uma grande janela com vista para as naves na doca espacial.

Janice estende o braço sugerindo uma mesa. Sentam-se frente a frente, enquanto um jovem garçom se aproxima para anotar o pedido.

- Pois não senhores, o que desejam?

- Duas xícaras de café, por favor. Diz Hikaru, enquanto olha para Janice esperando confirmação.

- O meu bem forte e traga para mim uma porção daqueles biscoitos de ervas rigelianas. Responde Janice.

O garçom anota o pedido e sai concordando com a cabeça.

- Você vai gostar desses biscoitos, são muito bons!

Janice se ajeita na cadeira coloca as duas mãos sobre a mesa com os dedos entrelaçados.

- Agora conte-me o final dessa história. Quando veio a sua promoção para capitão? Perguntou Janice.

Hikaru sorri, coloca o cotovelo direito na mesa, a mão no queixo e desvia o olhar para a janela.

- A promoção é recente, dá para ver a minha nave daqui.

- Qual? Pergunta Janice se virando para a janela.

- Aquela na doca 5.

- A Excelsior? Sério?

- A Frota Estelar resolveu me fazer uma surpresa. Eu esperava por um comando, mas não a Excelsior. Não sabe como estou radiante.

- Meus parabéns! Cumprimenta Janice com um largo sorriso enquanto aperta a mão esquerda dele com as suas duas mãos.

A conversa para por alguns minutos enquanto o garçom traz o pedido e eles provam o café e os biscoitos.

- Você tinha razão, esse biscoito é muito bom!

Janice não responde, apenas faz uma cara de satisfação concordando e provando mais um gole de café.

- Bom, voltando ao assunto, é por isso que estou aqui. Vim lhe fazer um convite, vou precisar de muita ajuda nesse novo trabalho e quero saber se você aceita ser a minha primeira oficial.

Janice faz uma cara de surpresa. Seu coração dispara com a excitação. Seria uma guinada na sua carreira. Hikaru reconhece aquela velha cara de: \\\"E agora o que eu faço?\\\" Comum a Janice nesse tipo de situação.

- É claro, eu te dou um tempo para pensar, mas não muito. Responde Hikaru, dando a entender que ele acha que ela não gostou muito do convite.

- Não é isso, eu gostei do convite. Estou muito lisonjeada. Muito mesmo! Mas você sabe que estou há anos afastada de naves estelares. Talvez eu não seja a pessoa certa para esse trabalho.

- Janice, somos amigos e eu vou abrir o jogo. Para mim o lugar do capitão é na ponte de sua nave. E pessoalmente, eu não gosto muito de fazer o trabalho de primeiro oficial, reconheço que não sou muito organizado. Por isso pensei em você, preciso de alguém que organize a tripulação e os recursos da nave. A Frota me indicou um jovem tenente comandante. Ele é bom, confio que possa trazer a nave para casa, mas sei que as coisas numa nave não funcionam sem uma tripulação organizada e bem treinada. Eu não acho que ele possa fazer isso.

Janice se sentiu mais lisonjeada ainda. Era um desafio, o maior de sua carreira. A confiança que ele depositava nela era algo que ninguém tinha demonstrado antes. Já tinha fugido de sua carreira tempo demais, e não queria fazer isso de novo. Mas será que conseguiria corresponder às expectativas? Estaria a altura desse desafio?

- Hikaru, eu estou inclinada a aceitar, mas tenho um trabalho aqui, preciso ver quem assumiria as minhas funções.

- Fiz o convite a você antes, pois precisava saber se aceitaria ou não. Se aceitar, conseguir a sua liberação seria fácil. É só falar com o Comando da Frota.

- Eu te dou uma resposta amanhã. Pode ser? Preciso ponderar essa situação. É uma guinada na minha carreira. Na minha vida.

- Sim, eu entendo. Não precisa dar a resposta agora. Mas não demore muito, pois se não aceitar tenho que ter tempo para um plano B. Responde Hikaru sorrindo e quebrando a tensão.

O encontro continua. Janice faz diversas perguntas sobre o trabalho. Sobre o que ele espera dela. Sobre a missão. A conversa também passa pelas suas vidas, carreiras expectativas, receios, família. Passaram uma ótima hora e meia juntos até que Hikaru se despede e diz que espera uma resposta dela.

De volta ao presente, Janice pensa: E aqui estou eu. Temos mais um dia cheio de trabalho. Ela pega suas anotações e arquivos no padd, em cima da mesa de cabeceira, ao lado da cama no quarto. Passa pela sala de estar e sai do aposento para mais um dia cheio de atividades à bordo da Excelsior.

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