Conto : O RECEBIMENTO DE KARA ( parte 03 )

recebimento capa Continuação do conto o Recebimento de Kara, em sua terceira parte.

 

 

Leia a primeira parte aqui.
 
Leia a segunda parte aqui.
 
 

 

Decker havia rapidamente se arrependido de deixar Kara costurar os cortes. Apesar de que não foram tão profundos, ele achou que precisavam de pontos. O problema fora que em cada momento em que ela percebia a dor que estava causando, ela desesperava, entrava em panico parando tudo e era necessário que Decker a convencesse novamente a continuar. Foram tantas vezes que Decker até perdeu a conta, então demorou mais do que ele esperava. Porem, o resultado fora muito bom, para quem nunca fizera antes. O conhecimento de afazeres domésticos demonstrou ser muito útil neste momento. Ela costurou rapidamente os cortes das roupas dele com uma velocidade quase de uma maquina costuradora industrial, apesar do improviso de agulha e com as linhas inadequadas encontradas nos destroços.

Após agradecer e vestir suas roupas, ele olhou a destruição do condo. O punk tinha destruído praticamente tudo, evidentemente procurando algo. O combate com Kara ajudou a aumentar a destruição dos destroços e tornar o local ainda mais caótico. Decker estava ficando intrigado, afinal já haviam aparecido agentes e agora apareceu um samurai.

Uma certeza, ele tinha : Outros apareceriam. Era só uma questão de tempo.

- Kara. Fique atenta, outros podem aparecer.

- Sim, Decker.

Ele foi para o quarto e lá testemunhou o mesmo grau elevado de destruição. Havia sangue espirrado em varias paredes. Abaixo daqueles destroços, ele encontrou o corpo com inúmeros cortes em varias direções.

Jason Maitner, o construtor de Kara, estava morto.

Decker estava desanimado. Tinha esperança que Jason não estivesse no condo e que ele poderia encontrá-lo. Neste momento, não tinha mais informação nenhuma, nem do que acontecera e nem de quem estaria envolvido. Ele empurrou os escombros de sobre o corpo e olhou atentamente: Era difícil de distinguir alguma coisa depois de tanto sangue, mas um leve brilho metálico chamou a atenção dele. Na cabeça de Jason estava um conector de deck. Provavelmente o samurai não viu ou não identificou aquilo como algo interessante. Decker poderia acessar aquele deck, tinha a possibilidade de não trazer nada novo a investigação, mas era o melhor a ser feito no momento. Porem Decker estava com um problema: Ele não tinha mais um teclado. Como Jason tinha um deck interno, era de se imaginar que ele tivesse um teclado em algum lugar.

Ele achou, após uma rápida procura na bagunça a sua volta, o pequeno e fino dispositivo emissor. Jason usava um teclado holográfico. Decker resolveu usar por falta de opção, porem ele detesta esse tipo de teclado, ele sempre preferiu sentir as teclas sobre os seus dedos.

Ele conectou os dermatrodos no deck de Jason, após uma limpeza rápida do sangue nos conectores e acionou o teclado. Os contornos das teclas surgiram em frente das mãos dele. Os dedos foram tocando o ar.

O ser de manto estava dentro de um ambiente escuro. Era um comodo sem portas ou janelas. Tinha as paredes escuras e esverdeadas de umidade e infiltrações. A impressão que passava era de um banheiro imundo, apesar de não possuir alguma outra parte que indicasse ser um banheiro. As paredes estavam sofrendo cintilações aleatórias, indicando que o código estava corrompido. Na sua frente havia uma imagem tridimensional de um homem com uniforme de trabalho, sentado de pernas cruzadas. A imagem tremulava muito, cintilava, desaparecia e voltava a reaparecer rapidamente. Ele parecia que estava dormindo.

As letras foram aparecendo no ar, flutuando a frente do ser de manto.

- Acesso.

O homem abriu os olhos. Não tinha olhos, apenas orbitas vazias. Dentro era possível ver códigos brilhantes passando. Em alguns momentos algumas mensagens de erro apareciam.

- Sistema de armazenamento. Qual a busca? - Alguns estalos faziam a voz distorcer.

- Buscar referencia a Kara.

- Buscando... Encontrada referencia. Executando. 3 índices disponíveis.

- Executar o primeiro índice.

Como se ligasse um projetor na parede atrás do homem sentado, uma imagem surgiu. Um local fechado com esteiras e braços brancos de montagem, a visão era de um ângulo superior. Uma androide estava sendo montada e houve um dialogo com ela. A androide começou ser desmontada porem Jason decidiu remontá-la e deixou-a seguir para a esteira lateral e ela fora embalada na caixa de acrílico reforçado, junto a outras androides iguais. Era difícil de entender as falas pois saiam muito baixas e picotadas. A imagem desapareceu.

- Fim da primeira referencia.

- Esse foi o momento em que Kara fora montada. - Pensou Decker. - Executar o segundo índice.

Uma imagem de registros internos. Na imagem aparece o rosto idêntico ao de Kara em uma moldura retangular. Abaixo, um texto falando do modelo de androide e dos números de Ids. Após isso aparece um texto em destaque falando do pedido de recall de quatro unidades.

- Fim da segunda referencia.

- Executar o terceiro índice.

A imagem de um comunicado interno da empresa Quantic Dreams surge na parece. A imagem de Kara de corpo inteiro está em um quadro a esquerda da imagem, no lado direto aparece os dados do comunicado :

Memorando interno. Documento numero 121867.

Recall do modelo AX400, terceira geração, primeiro lote.

 

Androide codinome Imogen. Vendido em 12-06.

Reembolsado o comprador.

Status RECUPERADO.

Desmonte REALIZADO.

LaBelle não localizado.

Disponível para venda.

 

Androide codinome Justine. Vendido em 15-06.

Comprador na espera de substituição.

Status RECUPERADO.

Desmonte REALIZADO.

LaBelle não localizado.

 

Androide codinome Kara. Vendido em 14-06.

Status DESCONHECIDO.

Desmonte NÃO REALIZADO.

Entregue ao comprador.

NÃO recuperado.

 

Androide codinome Linnete. Vendido em 15-06.

Não entregue. Retornado a montagem.

Status REMONTADO.

LaBelle não encontrado.

Reenviado ao comprador.

 

Solicitar a recuperação do androide codinome Kara …

 

Um som de estática forte surgiu e a imagem ficou tão distorcida que não era mais possível compreender o que estava aparecendo.

- Dados corrompidos. Módulo de memoria com erro. Erro critico. Erro critico. Erro...

Decker tentou entrar com um código para tentar recuperar alguma informação a mais, porem sua falta de pericia com teclados holográficos pesou e ele não conseguiu digitar os comandos rapidamente. O ambiente começou a colapsar em códigos corrompidos. Antes que a conexão fosse interrompida, Decker digitou o código de bloqueio, mas o mesmo acionou frações de segundos depois do pico de força contra-eletromotriz. A carga atingiu o seu deck. Decker cambaleou e caiu no chão. Sentindo uma dor lancinante, ele puxou com raiva os dermatrodos.

- MAS QUE … ! - Gritou.

Ele jogou o emissor de teclado na parede com força, destruindo o mesmo.

- Decker? - Kara veio até a porta do quarto. - O que aconteceu? Ela entrou e ajudou ele a se levantar. - Decker? Está ferido?

- Não. Foi um choque no deck. Vou me recuperar em alguns minutos. - Balançava a cabeça. - Kara, temos que ir.

Neste momento Kara viu o corpo de Jason. Ela colocou a mão na frente da boca lentamente. Seus olhos começaram a encher de lagrimas.

- Decker? Aquele é o criador?

- Aquele é o Jason. - Ele respondeu, reparando neste momento a expressão dela. - Kara?

Ela abraçou ele apertado e uma dor subiu no corpo dele aonde estava costurado. Ela chorava.

- Kara? - Ele a abraçou de volta. - O que...

- Ele me deu a vida.

Ele compreendeu. E nada disse, apenas esperou. Uma reação inesperada de um androide, mas Decker neste momento já não se surpreendia com mais nada que viesse deste androide.

Depois que Kara parecia mais conformada, Decker informou que deveriam ir. Eles saíram com Decker andando abraçado do lado dela e ela de cabeça baixa.

- Kara, eu tenho que conseguir um teclado e uma arma. Tenho que ir na área de Shandala. Você vai ficar bem?

Ela levantou a cabeça com uma expressão determinada, apesar da visível tristeza.

- Vou. Quero saber quem mandou matar o criador.

Apesar da expressão, Decker não viu aquele olhar assassino. Tinham que seguir até o levmag para seguir ao bairro comercial de Shandala, aonde existem variedades de lojas e comercio mais especializado. Também é um local que conhecendo as pessoas certas pode-se adquirir muita coisa que não é necessariamente legal. Decker em seu trabalho de jóquei é um homem que possui alguns desses contatos. Novamente tomaram precauções no caminho para um momento de necessidade. Desta vez estando desarmado, seria muito mais complicado, então as medidas foram mais criteriosas. Levaram mais tempo para irem lá.

Horas depois de saírem do bairro industrial, eles chegaram na loja de produtos eletrônicos de multimídia Logos. Kara estava maravilhada olhando todos os produtos que estavam nos mostruários. Um homem com cabelos pretos picotados, brincos de cruzes, vestido de preto com roupas muito justas, apareceu e veio falar com Decker.

- Bonita a menina. - Ele baixou a cabeça, olhando para o alto. - Quem diria Decker que um dia você ficaria amarrado... - Ele esboçou um sorriso com dificuldade. Parecendo que seu rosto é muito duro.

- Zero. Ela não é um caso.

- Decker querido. Você não precisa me justificar nada...

- Zero. Preciso de material.

- Ahm... Temos material multimídia de primeira, vai dar alguma coisa para a … - Ele olhou para ela com expressão de desgosto - Hmmm... Sua namoradinha, é? Ela parece... - Girou os olhos, com a mão quebrada em frente ao peito. - Como direi? … Bem, empolgada. Até demais pro meu gosto, você entende.

- Estava falando de outro material. - Sua expressão ficou seria. - Você entende.

- Oh, querido, porque não falou antes? Ela... - Ele apontou para Kara – Vai também precisar de algo? Alguma coisa portátil e pequenina? Não queremos que ela quebre as unhas né? Ou que machuque os pequenos pulsos delicados. Decker, nunca imaginei que você preferisse lolitas. Qual a idade dela? 16? 18?

- Zero. Chega dessa palhaçada e atenha-se ao equipamento. - Decker estava inexpressivo.

Zero fez uma expressão de desgosto, indicando que estava ofendido.

Bruto! Jony, atende o pessoal, tenho que ter uma conversa particular com esse cliente.

O assistente de Zero, Jony, fez um sinal positivamente.

Kara ameaçou seguir Decker, mas ele disse a ela para escolher um neuro-player. Ela sorriu e ficou olhando as opções. Enquanto Jony falava o que cada um poderia fazer. Decker foi para o fundo da loja e passou por uma porta de metal, após Zero digitar o código de abertura em uma holofechadura com biometria. Dentro há varias prateleiras com armamento e equipamentos considerados ilegais pelo policiamento da cidade. Se as autoridades soubessem, a loja ficaria cheia de agentes de repressão em questão de segundos e Zero seria arrastado para alguma colonia penal.

Zero entrou rebolativo e girou com as mãos abertas, como se estivesse apontando para todos os equipamentos.

- Você já sabe, querido, Zero tem tudo o que precisa. - Ele olhou Decker de cima a baixo. Nesta hora porta fechou atras de Decker. - Faça sua escolha.

Decker passou por diversas prateleiras com itens que não lhe interessava. Até que encontrou aonde estavam os diversos teclados. Holoteclados e telas de toque diversas. Nada lhe chamava a atenção, então ele viu o teclado preto. Modelo padrão antigo, em excelente estado. Ele pegou e balançou como que estivesse avaliando o peso. Correu os dedos pelas teclas e fechou os olhos sentindo cada toque.

- Você gosta dessas velharias, nem sei o que eu faço com isso... Vai, testa, pode levar isso. Você deve ser o único a usar isso nos dias de hoje mesmo...

Decker conectou o teclado e experimentou acessar alguns comandos e programas. Estava sorrindo, tinha voltado ao seu meio. Sentia-se completo novamente. Agora faltava uma arma. Zero possuia uma quantidade variada de armas. Porem Decker prefere armas de pequeno porte. Ele olhou as prateleiras e os suportes. Ele pegou uma delas.

- Hmmm... Tech III, pequena e confiável, tem baixo poder de fogo, mas alta taxa de tiro. - Disse Zero – Acho que não combina com você. Seu estilo é... Hmmm... Mais ataque. Porque não tenta uma Agressora?

- Essa aqui?

O jóquei pegou a arma. Ela tinha uma parte cromada com peças pretas, parecia bem leve apesar do tamanho mediano.

- Isso, querido. Essa é precisa, com menos taxa de tiro, mas o poder de fogo é alto, mesmo sendo uma arma aparentemente leve. Zero sabe das coisas. Essa é perfeita para você... Te dou duas unidades de carga na compra.

- Gostei. - Decker estava olhando para a arma e a colocou dentro do sobretudo. Ele depois guardou as duas unidades de carga. Colocou o teclado em uma capa e colocou nas costas, preso no corpo.

Ele procurou outros itens que puderiam servir e localizou correntes e uma trava de código. Pegou os dois, tinha uma ideia para o uso dos dois.

- Zero...

- Já sei, já sei querido. Você me paga quando puder depois. Aqui com Zero, sua palavra é confiável... E a bonequinha lá fora?

- Ela não precisa.

Zero ficou aturdido. Mas se recompôs rapidamente e já estava rebolando porta a fora, falando em voz alta:

- Jony, a menina já escolheu?

Veio uma resposta positiva.

- Decker, querido, vou colocar o valor na conta...

Kara veio com o neuro-player fixado na orelha direita. Parecia muito feliz.

- Decker, eu adorei.

Ela abraçou ele, sorrindo. Decker olhou para aquele dispositivo. Teve uma ideia para usar o mesmo, alem das projeções mentais que ele realiza.

- Vamos Kara.

- Sim Decker. Aonde vamos? - Ela estava com o braço enlaçado com o dele.

- Para aonde você nasceu. - Disse saindo da loja Logos.

 

( continua na quarta parte - neste link )

 

 

 

 

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People in this conversation

  • Guest - Chanceller Martok (Alexandro Paulo)

    Olha eu já ia perguntar: Como um andróide doméstico consegue adquirir habilidades, de luta e artes marciais, e disfarce? Afinal não como disse é um andróide doméstico?

    Então você continuou a trama e no terceiro capítulo deu mais ganchos para estória. Está bem interessante. Quero ver como isso se desenrola. Hehehehehehe

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  • Guest - Maykon

    esta Kara não é mais aquela do vídeo; ao que parece, o "criador" dela fez mais do que meramente impedir que ela fosse desmontada devido a um defeito de fabricação... um "defeito", aliás, que soa cada vez mais proposital; projetado até, e com um objetivo em mente: de quem era mesmo aquele apartamento aonde ela foi entregue? ;-)

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