Resenha de filme : GATTACA

 

Este aqui é um daqueles artigos que provavelmente o Findreans já deveria ter escrito há algum tempo, então aproveitando que hoje eu tô de bobeira e lembrando que o Cineclube SciFi vai exibir Gattaca hoje, às 16h30, no Planetário da Gávea - RJ, vou fazer uma breve resenha desta que é uma das mais bacanas obras de ficção científica do cinema dos anos 1990. 

 

 

SPOILER ALERT!

Nem é preciso comentar que vai rolar spoiler aqui, portanto se ainda não viu e estiver no Rio de Janeiro, aproveite a ocasião para assistir digrátis no CineClube Sci Fi. Depois volte aqui para comentar. ;) 

 

Como todo bom filme SciFi para ser bom precisa de um mínimo de contexto, Gattaca não foge à regra apresentando este contexto durante o desenvolvimento inicial do filme, por meio do recurso de narração do personagem protagonista Vincent Freeman (Ethan Hawke), em que somos apresentados à um \\\\\\\"admirável mundo novo\\\\\\\" em que a ciência genética dominou geral e estabeleceu o funcionamento da sociedade dividida em castas entre válidos - aqueles indivíduos geneticamente planejados e aptos a desenvolver papeis significativos dentro desta sociedade, e inválidos - a ralé que veio ao mundo por vias naturais não geneticamente planejadas podendo resultar em qualquer coisa que sirva também para exercer qualquer função social menos as destinadas aos válidos. Temos aqui um gênero de distopia embora talvez não tão hardcore como 1984 de George Orwell nem tão explícita como no Brave New World do Aldous Huxley.

Vincent, como toda pessoa de sorte (SQN!) é fruto de intercurso sexual geneticamente não planejado por alguma idiossincrasia momentânea de seus pais que o preferiram desse jeito o que lhe causou uma geração problemática já que nasceu para ser míope, com saúde aquém e estimativa de vida por volta de 32 anos predisposto a sério problemas cardíacos. Em contrapartida, seu irmão mais novo, Anton, nasceu pelos processos genéticos adequados à sociedade por conta que seus pais desta vez preferiram fazer da melhor forma, segundo os parâmetros sociais vigentes. Ou seja, pais bipolares e você pode nascer cagado, com defeito de fabricação, mal aê. Nem vou dizer que é uma puta falta de sacanagem, mas é no mínimo estranho que uma sociedade com tal controle permita a geração de inválidos, mas deve pegar mal o governo querer controlar a liberdade das famílias desse jeito, além do que não faltam subempregos no mundo atual, tampouco devem faltar no mundo de Gattaca, ou vocês acham que os fastfoods da vida não precisam mais de escravos atendentes? A menos que tenhas seis dedos em cada mão e seja um expert em piano, mas....

Seguindo a premissa do filme seria de se esperar que Vincent, como um inválido que é, aceitasse sua condição numa boa se resignando a papeis secundários e obscuros naquele mundo, porém o cara é muito inteligente e tem um notável interesse por Astronomia mesmo sabendo que as chances de vir a trabalhar no campo seja impossibilitada devido às suas condições genéticas. Isto deve ser no mínimo fruto de uma paranoia coletiva social em massa, porque uma inteligência bem desenvolvida não poderia ser considerada um fator de validação para o indivíduo fazer upgrade de classe social? Fosse assim em nossa realidade nunca teríamos um Stephen Hawking fazendo as maravilhas que faz em prol da Ciência, mas estamos fugindo da ambientação do filme. Voltemos à vaca fria.

 

Um belo dia, Vicent supera seu irmão Anton em uma disputa de natação que faziam e o acontecimento tem um efeito bombástico em suas expectativas, pois passou a acreditar que todo o papo de que um inválido nunca venceria um válido era apenas história da caronchinha, então resolve pegar suas coisas botar o pé na estrada e tentar trilhar seu próprio caminho rumo ao sonho de uma carreira astronômica. Infelizmente, a única coisa que consegue é um emprego de faxineiro em Gattaca (queriam o quê?) e é aqui que a história realmente acontece.

         

GATTACA é o sonho dourado dos astrônomos/astronautas deste mundo e trabalhar em Gattaca é a melhor saída para os que desejam se aventurar no espaço sideral. A instituição tem lançamentos praticamente diários de foguetes rumo ao Cosmos e Vincent sabe que é ali a única esperança concreta de sair deste mundo. Considerando a merda que é para os inválidos quem em sã consciência não quereria sair do mundo? Interessante notar que a situação dos inválidos também sequer incomoda os geneticamente superiores, pois a sociedade está estabelecida dentro daqueles valores e não há nada de errado em ter milhares de válidos usufruindo o melhor da sociedade e milhares de inválidos limpando a sujeira, pois alguém sempre terá que fazer o serviço sujo. Eca! Embora não seja o foco do filme isso levante uma série de debates filosóficos sobre as normalidades temporais das sociedades humanas ao longo da História. Se hoje é absurdo discriminar e escravizar pessoas só pela diferença da cor da pele, no passado isso era coisa mais normal e ninguém se importava em ter escravos. Hoje temos a galera que trabalha nas Foxconns da vida. Tudo errado de qualquer jeito.

 

Vincent tem a ambição de ir para Titã, um dos satélites naturais de Júpiter, e a sorte finalmente lhe sorri quando um contrabandista de identidade consegue um acordo entre ele e um ex-atleta que ficou paralítico, mas é perfeitamente válido para ser aceito em Gattaca. Jerome Morrow (Jude Law) então fornece à Vincent sua própria identidade e todo tipo de material genético, sangue, urina, unhas, que possibilitem o livre acesso de Vincent às dependências de Gattaca. A partir deste momento, ambos passam a viver juntos e o verdadeiro Jerome pede que o chame apenas pelo seu nome do meio, Eugene, uma vez que Vincent tem que introjetar a persona de Jerome.

 

 

 

Eugene é um nome que faz clara referência à Eugênia, cujo assunto está no cerne do filme. A escada em sua residência também é uma interessante referência visual à hélice helicoidal do DNA e GATTACA simplesmente faz referência às letras das bases nitrogenadas do DNA, a saber Guanina, Adenina, Timina e Citosina.

Tudo vai indo bem na vida de Vincent, agora sob a identidade de Jerome, até o dia em que um dos big boss de Gattaca é encontrado morto e os meganhas locais são chamados a desvendar o mistério. Só não entendi como o cara morreu com o cérebro estourado e nenhuma câmera de segurança gravou o crime, mas aí também seria um absurdo considerar um homicida entre aqueles geneticamente superiores. Os poliças são chamados para resolver o caso, fazendo uma limpa no local do crime e aspirando tudo que é material passível de análise que possa solucionar o ocorrido. Para azar de Vincent, ele sem querer deixou cair um cílio que foi aspirado e denunciou sua presença no local. A partir daí, o filme se torna uma ótima trama de suspense, com o protagonista correndo contra o tempo para se salvar e despistar os meganhas a tempo de fazer sua viagem para Titã que estava agendada para breve.

 

 

O plot twist é bem legal neste filme e entretém até o final, que considero bastante surpreendente levando em conta as premissas genéticas do argumento. O assassino, a priori não deveria existir e muito menos ser quem era, e isso põe em cheque toda a manipulação genética estabelecida. A história ainda engata um romance entre Vincent e uma colega de trabalho, Irene Cassini (Uma Thurma), resignada com sua condição física limitante, pois tem problemas de coração, mas secretamente uma sonhadora com viagens espaciais.

Como proposta de reflexão social, as possibilidades de manipulação genética são interessantes e estão próximas de se tornarem realidade em ponto futuro na nossa Ciência, agora até que ponto é eticamente certo ou moral manipular nossas crias geneticamente. O que as religiões dirão sobre o assunto? É certo mexer nas \\\\\\\"obras de Deus\\\\\\\"? Por outro lado, se você pudesse manipular seus vindouros filhos para livrá-los de problemas como propensão à cânceres, autismos, distúrbios neurológicos, síndrome de Down e outros, vocês não o fariam? E quantos não pensariam em doideiras como querer definir o sexo dos fetos, cores, formatos e outras coisas idiossincraticamente ainda impensáveis? 

No mais, é um ótimo filme de ficção científica (considerado um dos melhores pela Nasa), com roteiro e direção bem executados e visual retrô-futurista bem interessante. Andrew Niccol, diretor e autor de Gattaca, já tinha mostrado que tem boas ideias com o Show de Truman e se alguns aspectos são logicamente estranhos ou sem sentido, vale nos lembrar que todo filme tem esses problemas e nós pensamos demais quando paramos para analisar os argumentos. O que é bom claro, porque cérebro é feito pra pensar mesmo, mas Gattaca não me parece ofender a inteligência do espectador como outros filmes do gênero acabam fazendo.     

 

SciFi Tupiniquim dá cinco foguetes de cinco foguetes para a fita.

Esqueça o horroroso subtítulo \\\\\\\"A experiência genética\\\\\\\" em português inexistente no título original, nem sei porque ainda mantém essa tradição no Brasil. E vocês o que acharam da história? Viram algo diferente do exposto neste artigo? Digam nos comentários e continuamos o papo aqui. 

 

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GATTACA

Site Oficial 

Ficha técnica 

TítuloGattaca (Original)

Ano- 1997

Dirigido por Andrew Niccol

Estreia mundial - 7 de Setembro de 1997  

Duração - 106 minutos

Classificação - Não recomendado para menores de 14 anos

Gênero - Drama/Ficção Científica/Thriller

Países de Origem- Estados Unidos da América

 

Sinopse

Num futuro no qual os seres humanos são criados geneticamente em laboratórios, as pessoas concebidas biologicamente são consideradas \\\\\\\"inválidas\\\\\\\". Vincent Freeman (Ethan Hawke), um \\\\\\\"inválido\\\\\\\", consegue um lugar de destaque em corporação, escondendo sua verdadeira origem. Mas um misterioso caso de assassinato pode expôr seu passado.

 

 

 

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